Primeiro, pense em um jovem escritor, ainda desconhecido. Filólogo por formação, e profundamente devotado à cultura de seu povo, o qual não possui um Estado próprio, ele começa a militância em grupos que querem a autodeterminação.
Como era de esperar, ele foi processado pelo governo central e condenado à prisão. Pena de 22 anos.
Encarcerado, cumpriu 5 anos até escapar de uma forma digna de filme hollywoodiano.
Como? Um conhecido cantor da mesma etnia foi fazer um show na prisão. Após a saída dos músicos, durante a contagem dos presos, a direção verificou que dois estavam faltando: nosso escritor e outro militante nacionalista. Como ocorreu a fuga? Eles simplesmente saíram escondidos dentro dos grandes auto-falantes da banda, que foram carregados até os veículos por outros presos.
Nosso personagem caiu na clandestinidade (e provavelmente no exílio), e jamais reapareceu publicamente (pesquisando um pouco mais, uma fonte afirmou que os processos já estão prescritos, e nosso escritor poderia voltar à vida normal, porém não consegui encontrar uma confirmação).
E já se vão 24 anos desde então...
Se parasse por aqui, a história seria interessante mas apenas mais uma dentre muitas desse tipo que conhecemos. O que diferencia nosso personagem é que ele tem aproveitado esse tempo para uma prolífica produção, tanto de obras próprias quanto de traduções de escritores estrangeiros para a sua língua materna. E com essa produção, mesmo na clandestinidade, ganhou alguns prêmios literários.
T.S. Elliot, Robert Louis Stevenson, Samuel Taylor Coleridge e Fernando Pessoa são alguns dos escritores mais conhecidos que ele traduziu. Escritores galegos, catalães e latino-americanos também são outros alvos frequentes de seu trabalho.
Ah, ele traduziu a Antologia Poética, de um tal de Manuel Bandeira. Familiar?
Bem, hora de dar nome aos bois...
Nosso personagem chama-se Joseba Sarrionandia Uribelarrea, e nasceu em Iurrreta, no País Basco, em 1958.
Eis seu poema mais conhecido:
O escravo ferreiro
Preso nas selvas do ocidente
trazeram-te a Roma, escravo,
deram-te o ofício de ferreiro
e fazes grilhões.
O ferro vermelho que sacas dos fornos
pode moldar como queiras,
podes fazer espadas
para que os teus compatriotas rompam as suas cadeias,
mas tu, esse escravo,
fazes grilhões, mais grilhões
Aqui vale um adendo.
Sou um profundo entusiasta da causa independentista do País Basco. Acredito piamente que aquele povo tem direito á gerir com inteira soberania o seu destino, e que os governos de Espanha e França serão obrigados, mais dia menos dia, a reconhecer inteiramente os direitos do povo basco. Mas não posso me furtar a uma constatação clara: a organização armada ETA perdeu o bonde da história, e vai acabar sendo marginalizada dentro de seu próprio povo. Hoje é apenas um grupo reduzido de fanáticos dissociados da realidade, que nem mesmo podem invocar a bandeira "revolucionária" sem deixar os verdadeiros militantes das causas progressistas com náuseas.
Perdeu aquela aura de lutadores contra a ditadura franquista, e mais, se afastou completamente das motivações que lhe deram origem 50 anos atrás. Não vê que, apesar de os governos espanhol e francês não tratarem da questão basca com o devido cuidado e respeito, ambos os países são democracias, contra as quais a luta armada não faz o menor sentido. Ela apenas alimenta aquele monstro que chamamos de facismo, que vive á espreita aguardando desculpas para mostrar seus dentes.
Talvez falte ao grupo e seus simpatizantes elementos com uma visão clara de mundo, como os que existiam dentro do IRA e de seus braço político, o Sinn Fein, o que propiciou o acordo que transformou a Irlanda do Norte em um lugar, senão de perfeita paz, pelo menos incomparavelmente mais justo hoje do que meros 15 anos atrás.
Repito: todo apoio ao povo basco em sua busca por justiça e liberdade.
Mas chega desse infrutífero derramamento de sangue.