26 de março de 2010

Não é por nada não...

Amigos do De Olho no Fato !!!

Estou escrevendo essas pessimamente digitadas linhas por dois motivos.

O primeiro é impedir que este sítio seja declarado pelo INCRA como terra improdutiva, ou pior, abandonada, e por isso sujeita desapropriação para fins de reforma agrária virtual.

Jamais permitirei que os malucos do MSS (Movimento dos Sem-Site), ou então da sua disidência, o MSB (Movimento dos Sem-Blog), ocupem este espaço para cantar loas para seus gurus, Reinaldo Azevedo e Olavo de Carvalho.

O que me alertou foi que até aquele galalau com sindrome anti-futebolistica resolveu retomar o blog dele...

Algo deve estar acontecendo...


O outro motivo é para explicar o meu relacionamento (ou a falta dele...) com a OI durante a última semana.

Eu acesso a internet em casa através do serviço Velox da supra-citada operadora, e acho que pago uma nota preta para pouco largura de banda a minha disposição. Mas até aí não tem muito o que fazer, pois as opções disponíveis aqui na terrinha são ainda piores...

O diabo é que faz exatamente uma semana que estou sem acesso à grande rede e sem telefone fixo. E o motivo seria cômico se não fosse trágico.

A companhia de saneamento do estado está realizando umas obras bem no limite do meu bairro, mais ou menos a 1 quilômetro da minha casa. Pois não é que uma das máquinas cortou totalmente o cabo que liga a estação da OI ao quadro aqui do bairro (aqueles armários que ficam em algumas esquinas)?

Isso aconteceu no começo da manhã de sexta-feira passada, que era feriado aqui, e apesar do grande número de reclamações (praticamente todos os prejudicados deram um jeito de ligar para protocolar uma reclamação), só na segunda-feira pudemos ver uma equipe mexendo no quadro.
Curioso como sou, fui até la´conversar com eles. E descobri que tudo está sendo feito pelo método lusitano de tentativa-e-erro. São três grupos: um na estação, um no local do rompimento do cabo e outro no quadro, e eles estão recompondo e testando os fios, um por um...

Tanto para mim quanto para os coitados dos trabalhadores que estão fazendo o serviço, isso é o que se chama purgar todos os pecados...


15 de março de 2010

25 anos de liberdade

Hoje, 15 de Março, completam-se 25 anos do fim oficial daquela que esperamos tenha sido a última ditadura que governou o Brasil.

Digo governou, mas poderia ter usado muitos outros termos: oprimiu, infelicitou, aterrorizou, silenciou, castrou, desorientou, ...

Apesar de em seus anos finais ela ter sido claramente menos cruel do que em seu período mais negro, entre 1968 e 1976 (os anos de chumbo), não deixa de ser meio surpreendente que tenha durado tanto tempo, vinte e um longos anos.

Sobre isso, lembro de uma conversa que tive meses antes da Anistia, com um bom amigo, velho combatente contra o arbítrio, que saiu-se com essa comparação:

- Cara, os nazistas ficaram 12 anos no poder, e foi preciso uma guerra daquelas para derrotá-los. Os milicos daqui já estão mandando a quase 15 anos... Os caras são duros de roer...

Desde aquele 15 de Março de 1985, a nossa democracia consolidou-se, com as amplas liberdades públicas que hoje desfrutamos.

Mas talvez naquele exato dia estejam as sementes dos problemas que hoje enfrentamos em nossa estrutura política. O que poderia ter sido um ponto de partida para mudanças amplas e profundas acabou sendo um bocado de "mais do mesmo".

Esperar Tancredo e receber Sarney foi um choque que demorou para ser verdadeiramente assimilado e processado. As influências disso na Constituição de 88 e no restante da nossa organização político-partidária são claros, exigindo reformas urgentes.

Sarney, Collor, Itamar, FHC, Lula.

Tão diferentes entre si, mas todos eles sem vontade ou sem poder para romper certos vícios. E todos tendo em comum raízes na luta política do tempo da ditadura, quaisquer que fossem os lados em que estivessem.

A eleição de 2010 não deverá produzir nada diferente, já que os dois principais candidatos começaram a vida política na luta contra o antigo regime.

Ou seja, para o bem ou para o mal, aquele tempo negro onde a força fez o mal que a força sempre faz continuará deixando seus rastros.

Quem sabe daqui a alguns anos ela não será mais do que uma lembrança ruim, um sonho mau que não assustará nem um pouco, e o país discutirá seus problemas sem se medir por réguas ultrapassadas.

26 de fevereiro de 2010

Você conhece o Marechal Montenegro?

Dias atrás presenciamos o episódio em que um general quatro-estrelas que perdeu a função que exercia em virtude de ter emitido opiniões nada lisonjeiras sobre o Plano de Direitos Humanos que o governo lançou, numa clara quebra de hierarquia

Perfeita a decisão. Hierarquia é fundamento básico de qualquer força militar, e nenhum militar na ativa pode questionar o poder civil. Sem exceções. Quanto ao conteúdo das críticas, foi um amontoado de bobagens que ninguém leva a sério, exceto os saudosistas da Redentora e os inimigos transloucados do atual governo. Governo que tem seus erros (muitos) e acertos (outro tanto), mas que não pode ser acusado de revanchista e inimigo da democracia.

Por um acaso, logo depois do episódio entrei em contato mais próximo com a história de vida de um militar que, por não ter as melhores relações com alguns dos cabeças do Golpe de 64 e com alguns dos expoentes da linha-dura do regime militar que se seguiu, teve seu nome colocado em uma "lista negra" daqueles de quem não se devia falar (pelo menos não aberta e elogiosamente) dentro dos quarteis e instituições militares.

Falo do Marechal-do Ar Casimiro Montenegro Filho. Para aqueles não estão ligando o nome às realizações, basta lembrar que esse meu conterrâneo foi o criador do ITA (Instituto Tecnológico da Aeronáutica) e do CTA (Centro Técnico Aeroespacial, hoje Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial). E que consegui esses intentos tendo que vencer a resistência do governo de então e de parte de seus companheiros de farda.

Ele foi objeto de várias biografias, sendo a mais conhecida a escrita por Fernando Morais com o título "Montenegro - As aventuras de um Marechal que fez uma revolução nos céus do Brasil ". Leitura agradável e muito esclarecedora sobre um pedaço da história de nosso país, mais especificamente a que vai do fim da 2ª Guerra até meados dos anos 60.

Nela fica claro o caráter obscurantista de diversos personagens que povoaram os quartéis e a política brasileira naquele período e um pouco além.

O patrono da Força Aérea Brasileira, brigadeiro Eduardo Gomes, é um que sai com a biografia bem chamuscada. Além de ter ideias políticas marcadas por um anti-comunismo exacerbado, que conseguia ver maquinações esquerdistas em pessoas e/ou movimentos apenas nacionalistas (ou nem isso), fica a imagem de alguém chegado a mesquinharias e que não conseguia enxergar o futuro nem mesmo em sua própria área de atuação. Por exemplo, se opunha firmemente ao trabalho que Montenegro realizava visando parcerias com industrias avançadas para desenvolver a fabricação de aviões a jato no Brasil, coisa que para Gomes não tinha futuro.

Se para medir a grandeza de um homem uma das formas é saber quem são seus inimigos, Montenegro está bem na foto. Além de Eduardo Gomes (que o perseguiu enquanto pode, até conseguir afastá-lo do ITA, no pós-Golpe), se alinhava entre seus adversários o famoso brigadeiro João Paulo Burnier, ultra-radical no espectro político responsável pelo planejamento do que ficou conhecido como Caso Para-SAR e, posteriormente, acusado de ser o responsável pela morte do militante Stuart Angel durante sessões de tortura.

É bem capaz que alguém aí venha dizer: "Mas o Fernando Morais é esquerdista, deve ter distorcido os fatos...".

Pois bem, também me deparei com esta resenha do livro feita pelo pesquisador Sued Castro Lima, que não por acaso é coronel-aviador da reserva, e na qual ele referenda a quase totalidade do conteúdo do livro.

Outro texto interessante sobre o mesmo tema é o escrito pelo engenheiro Armando Milioni, onde se lança alguma luz sobre as entranhas do ITA, especialmente durante a ditadura, mas também em dias mais próximos.

Neste dia 26 de fevereiro completam-se 10 anos da morte do Marechal Montenegro.

Ele permanece um ilustre desconhecido para a esmagadora maioria do nosso povo. Mesmo entre aqueles com um grau de instrução/informação acima da média dos brasileiros esse desconhecimento é marcante.

Por que será?

Talvez por ele ter apresentado uma visão de Brasil diferente da defendida por grande parte das nossas elites, que enxergavam quase nada além dos próprios interesses (frequentemente entreguistas). Ou talvez também porque, apesar de passar longe de ser um progressista na política (na verdade ele era bem conservador, apoiou os movimentos contra Getúlio, Juscelino e Jango), nunca participou ou concordou com perseguições tipo caça às bruxas, como as ocorridas no pós-64.



23 de fevereiro de 2010

Eles não tomam jeito (3)

Um dos países que mais constantemente desperta meu interesse é a Turquia. Nem sei exatamente por que. Não tenho laços de nenhum tipo com o país (pelo menos que eu saiba...), e a única razão que me passa pela cabeça é a História, uma das minhas paixões. A quantidade de eventos marcantes para a Humanidade que ocorreram naquela área é impressionante...

Dentro desse meu interesse uma coisa ressalta: muito frequentemente tenho posições nada lisonjeiras para com os governantes turcos, especialmente os dos últimos 300 anos. O tratamento dispensados às minorias e povos conquistados é, independente do tipo de governo e de sua posição política, deplorável. Armênios, curdos, gregos e árabes que o digam...

Todo esse tipo de problema se agravou incrivelmente a partir da chamada Revolução dos Jovens Turcos, em 1908, e que apesar de ter sido feita com supostos ideais liberais e democráticos (o mote era reinstalar a constituição que o sultão havia suspenso anos antes), na realidade descambou para um governo autoritário, centralizador e ultranacionalista. E teve o subproduto de trazer o Exército para dentro da política, de onde nunca mais saiu inteiramente.

Resultado? Com relação aos grupos étnicos, além do conhecido Genocídio dos Armênios (1915-1918), foram massacrados gregos, cristãos ciríacos e nestorianos e curdos. Talvez nunca saibamos o total de vítimas, mas as estimativas variam de 2 milhões até 4,3 milhões de mortos.

Com relação a política interna, após o longo governo de Kemal Ataturk (1923-1938), que estabilizou e modernizou o país, voltaram a ocorrer instabilidades. De lá para cá foram 4 golpes militares bem sucedidos e diversos outros que não tiveram êxito. Regra geral, as ações dos militares tem como desculpa a luta contra a corrupção e o combate a medidas mais liberais ou anti-seculares. Ou seja, mal escondem sua ideologia de direita e ultranacionalista.

Desde a posse em 2003 do atual primeiro-ministro Recep Tayyip Erdoğan, do Partido da Justiça e Desenvolvimento, de linha islâmica moderada, várias conspirações militares foram descobertas e debeladas. A última foi esta destroçada esta semana.

Um grupo de 49 militares da ativa e da reserva, incluindo 17 generais e 4 almirantes, foi preso após longa investigação. Ligados a uma organização chamada Ergenekon, pretendiam desencadear ações terroristas para desestabilizar o governo e justificar uma intervenção das Forças Armadas .

Engraçado como o enredo quase nunca muda, qualquer que seja o país.

Esses caras realmente não tomam jeito...

15 de fevereiro de 2010

O que é ruim sempre pode piorar

Quase exatamente um ano atrás, falei aqui sobre a alta taxa de suicídios entre os membros das forças armadas americanas, que tinham atingido números recordes em 2008.

Pois bem, acabaram de sair os números preliminares de 2009. E a coisa piorou, e muito.

No total, o número passou 235 para 301 casos. E ainda existem outros episódios sendo investigados...

E se forem observados os números dos veteranos (soldados já fora do serviço ativo) a situação fica ainda mais estarrecedora: 20% do total de aproximadamente 30.000 suicídios que ocorrem a cada ano nos EUA são entre os veteranos.

Pra encerrar, sem delongas:

(Autor: Joel Pett, no Lexington Herald-Leader, via McClatchy)

11 de fevereiro de 2010

Ponto de inflexão na vida de dois homens

Nos últimos dias, algumas notícias me lembraram que certo episódio, envolvendo um negro pra lá de famoso, está completando hoje 20 anos.

O interessante é que, na minha cabeça, a data está entrelaçada também a outro acontecimento, também envolvendo outro negro bastante conhecido. Essa ligação entre os fatos solidificou-se na minha cabeça desde a época, tanto que toda vez que falava de um deles acabava citando, mesmo de passagem, o outro.

No final da madrugada e começo da manhã do dia 11 de fevereiro de 1990, eu e milhares de fanáticos por esporte estávamos de olho na telinha assistindo aquela que prometia ser outra fantástica (apesar de rapidíssíma) atuação de Mike Tyson nos ringues. Ele estava no Japão lutando contra o desconhecido James "Buster" Douglas, era favorito destacado, e quase todos acreditavam que ele venceria por nocaute ainda nos primeiros rounds. Douglas parecia o adversário perfeito para ser massacrado, e com isso ajudar a extender o domínio de Tyson na categoria dos pesos-pesados.

Mas aquele dia levava jeito de ter sido formatado pelo destino para desencadear mudanças em todos os níveis.

Desde antes do início da luta, os locutores vinham interrompendo a transmissão para falar do outro evento que marcaria aquele dia. Uma multidão de sul-africanos, a qual se juntava a imprensa mundial em peso, aguardava no lado de fora da Prisão Victor Verster, na Cidade do Cabo, pela provável (mas ainda incerta) libertação do líder negro Nelson Mandela.

A luta transcorreu de forma totalmente atípica (pelo menos para os padrões Mike Tyson até aquele momento). No começo, o campeão atacou naquele seu estilo rolo compressor, que costumava acabar a maioria das lutas em até 3 assaltos. Só que Douglas estava mais preparado do que aparentava, e Tyson, pelo contrário, estava mais disperso e vacilante que o normal. Não conseguia entrar na guarda do desafiante, que usava a maior altura para manter Tyson à distância, e castigá-lo como nunca anteriormente um adversário havia feito.

Enquanto isso a expectativa na Cidade do Cabo aumentava. Uma das coisas mais interessantes é que ninguém fazia ideia da aparência de Mandela, já que a última foto disponível dele era de mais de 25 anos antes. E a espera continuava...

A luta em Tóquio chegou ao 8º assalto, e pareceu que Tyson havia acordado. Desferiu uma ótima sequencia de golpes, encerrada por um potente cruzado de direita que derrubou Douglas, que só conseguiu se levantar quase no final da contagem do juiz. Tyson continuou a tentar encerrar a luta via nocaute durante o 9º assalto, mas sem sucesso.

Chegou o 10º assalto, e Douglas, refeito do castigo, partiu para cima do cansado Tyson, e com um cruzado seguido de uma sequencia rápida de golpes mandou o campeão para a lona.

Neste ponto, fico pensando qual a imagem mais marcante daquele dia. As duas ocorreram com poucos minutos de diferença e, cada uma a seu modo, retrataram instantes de mudança.

Primeiro foi a visão de Tyson tentando se levantar, mas com as pernas se recusando a obedecer, e com o protetor bucal escapulindo por entre seus lábios.

Depois, a imagem de Mandela saindo pelo portão principal da prisão, de mãos dadas com sua então esposa Winnie, e aclamado por uma multidão que explodia em gritos e lágrimas.

Daquele instante em diante, a carreira e a vida de Mike Tyson nunca mais foram as mesmas, até chegar ao que ele é atualmente: apenas uma nota de rodapé das colunas fofocas e das páginas policiais.

Já Mandela precisou de pouco mais de 4 anos para ser eleito Presidente de uma África do Sul livre das leis do apartheid, e continua até hoje a ser um símbolo da luta pela liberdade e um exemplo de político negociador.


****


Antes que eu esqueça: assistam "Invictus", de Clint Eastwood.

Morgan Freeman É Mandela.

Impressionante.


3 de fevereiro de 2010

Chavez falou besteira. De novo...

Um bom amigo vem insistindo desde a semana passada que eu escreva algo sobre a crise na Venezuela.

A falta de tempo para uma pesquisa mais adequada, e a constatação de que pessoas mais preparadas já disseram mais ou menos o que eu penso acabaram adiando o post.

Porém, existem fatos que praticamente obrigam você a escrever. Ou porque exigem um posicionamento rápido e firme, ou porque a piada pronta é inescapável...

Ainda estou em dúvida sobre qual das categorias acima melhor reflete isto aqui:

Chavez quer governar mais 11 anos e prevê 1800 anos de governo revolucionário

Sempre considerei que a Venezuela não está sob uma ditadura. Pelo menos ainda... Faltam alguns dos atributos da nossa velha conhecida de tantos séculos.

Entretanto, e apesar de não considerar Hugo Chavez a encarnação do mal absoluto, sempre pensei nele como um anteprojeto de ditador. Não faltaria vontade, apenas as condições, e talvez essas nunca venham a existir...

Claro, além de ele ser um bufão incorrigível e de uma incompetência basilar enquanto administrador.

Ponto. Parei.

Mas diante da notíca acima, e sem querer comparar os personagens, o primeiro pensamento que me veio foi:

Caramba, o último infeliz (imbecil, louco, pode escolher o adjetivo...) que falou em um governo de 1000 anos, deu no que deu...



***

Só agora me toquei que este é o post de número 250 do De Olho no Fato.
Não é nada, não é nada, já é uma vereda, com sonhos de virar estrada...

31 de janeiro de 2010

Mais uma baixa

Não resta dúvida: a blogosfera brasileira esta sofrendo uma verdadeira "limpeza étnica", tanto quantitativa quanto (e especialmente) qualitativa.

Alguns dos seus melhores quadros estão abandonando o barco, ou pelo menos dando um tempo, sem prazo pra voltar. E não é de hoje... Mesmo os que retornaram, como o Pedro Doria, o fizeram em um esquema diferente, com outro enfoque de temas.

O mais recente caso é o Hermenauta, que anunciou, ao atingir 1 milhão de acessos, que está suspendendo a atualização do seu blog, alegando motivos profissionais e pessoais (ele e a madame Hermenauta estão encomendando o primeiro herdeiro).

Dos caras realmente conhecidos na blogosfera brasileira, ele é um dos que mais admiro e um dos raríssimos que tive a chance de conhecer pessoalmente. Dizer que ele é uma grande figura não expressa com clareza tudo o que ele é.

No início deste potencialmente explosivo ano eleitoral, o setor mais progressista daqueles que circulam diariamente pela grande rede em nosso país ficaram privados de uma de suas mais incisivas vozes.

Resta-me dizer duas coisa.

Primeiro: Valeu, Hermê. E quando bater a saudade, apareça na velha casa ou na dos amigos.

Segundo: Volta, Idelber. A briga vai ser feia...



17 de janeiro de 2010

Uma resposta legal e uma notícia ainda mais legal

A Cyntia, do Cyn City, traduziu uma boa resposta às besteiras que o Pat Robertson falou,sobre o Haiti, escrita por uma americana e enviada ao Star-Tribune, de Minneapolis.

No bem-humorado texto, é como se o Diabo em pessoa respondesse à Robertson.

Eis a tradução:

Querido Pat Robertson,

Eu sei que você sabe que qualquer publicidade é boa publicidade, então deixe-me dizer, antes de qualquer outra coisa, que eu apreciei o comercial. E você fez Deus parecer um babaca cruel, que chuta as pessoas quando elas já estão no chão, então achei bem legal.

Mas quando você diz que o Haiti fez um pacto comigo, aí a coisa muda de figura : fica totalmente humilhante pra mim. Eu posso ser a encarnação do Mal, mas não sou nenhum moleque. Do jeito que você colocou a coisa, ficou parecendo que um pacto comigo deixa as pessoas desesperadas e empobrecidas. Tá bom, claro que deixa, mas só no além. É bom lembrar que quando eu faço um trato com as pessoas, primeiro elas ganham alguma coisa aqui na Terra : glamour, beleza, talento, dinheiro, fama, glória, um violino de ouro. Os haitianos não têm nada, e eu quero dizer nada mesmo. E já não tinham desde antes do terremoto. Você nunca assistiu a “Crossroads” ? Ou “Malditos Yankees” ? Se eu tivesse algum negócio rolando com o Haiti, pode acreditar que eles teriam montes de bancos, arranha-céus, SUVs, boates exclusivas, botox – esse tipo de coisa. Um índice de pobreza de 80% não é meu estilo, não mesmo. Nada contra, só estou dizendo : não é assim que eu trabalho.

Você vem fazendo um excelente trabalho, Pat, e eu não quero cortar suas asinhas, mas peraí, assim você me deixa mal na foto. E não quero dizer “mal” do jeito bom. Continue culpando Deus, tudo bem. Isso funciona. Mas me deixe fora disso, por favor. Do contrário, posso ser obrigado a rever seu contrato comigo.

Boa sorte

Satã.

***

Pra compensar uma semana carregada como esta, um boa notícia: finalmente notei que o excelente site Um Que Tenha voltou ao ar. Ele havia sido fechado por uma ação dos representantes da gravadoras por facilitar o download de álbuns musicais.

Não qualquer álbum: o melhor da música brasileira e alguns (poucos) álbuns internacionais de excelente qualidade.

Eu tinha linkado o site no post sobre a Massafeira, e depois deixei um aviso sobre o fechamento.

Bem, ele voltou (já faz tempo, desde setembro, o babaca aqui é que não tinha notado...).

Façam bom, excelente uso.

15 de janeiro de 2010

Haiti: um país posto de joelhos

O desastre imensurável que se abateu sobre o Haiti supera qualquer tipo de racionalização que se possa tentar.

Um país que ainda vinha lutando para se reerguer de uma série de tragédias naturais e humanas que o assolaram por décadas sofreu um golpe da natureza que beira a crueldade, se é que podemos usar essa expressão.

É obrigação de todos os governos do mundo (pelo menos os que tiverem alguma mínima condição) ajudar o Haiti e seu povo.

Mas não dá para nós, simples cidadãos, ficarmos só olhando. A hora de colaborar é agora.

Eis algumas contas bancárias abertas para as doações:

Embaixada do Haiti no Brasil
Banco do Brasil
Agência 1606-3
Conta corrente 91.000-7
CNPJ 04170237/0001-71

Cruz Vermelha
HSBC
Agência 1276
Conta corrente 14526-84
CNPJ 04359688/0001-51

Viva Rio
Banco do Brasil
Agência 1769-8
Conta corrente 5113-6
CNPJ 00343941/0001-28

Care Internacional Brasil
Banco Real-Santander
Agência 0373
Conta corrente 5756365-0
CNPJ 04180646/0001-59

Pastoral da Criança
HSBC
Agência 0058
Conta Corrente 12.345-53
CNPJ 00.975.471/0001-15

14 de janeiro de 2010

A Comissão da Verdade: um depoimento emocionado

De tudo que li sobre a já famosa Comissão da Verdade, transcrevo o pungente texto da jornalista Hildegard Angel, publicado no Jornal do Brasil em 08/01/2010.


Quem tem medo da verdade?

CHEGA UMA hora em que não aguento, tenho que falar. Já que quem deveria falar não fala, ou porque se cansou do combate ou porque acomodou-se em seus novos empregos... POIS BEM: é impressionante o tiroteio de emails de gente da direita truculenta, aqueles que se pensava haviam arquivado os coturnos, que despertam como se fossem zumbis ressuscitados e vêm assombrar nosso cotidiano com elogios à ação sanguinária dos ditadores, os quais torturaram e mataram nos mais sórdidos porões deste país, com instrumentos de tortura terríveis, barbaridades medievais, e trucidaram nossos jovens idealistas, na grande maioria universitários da classe média, que se viram impedidos, pelos algozes, de prosseguir seus estudos nas escolas, onde a liberdade de pensamento não era permitida, que dirá a de expressão!... E AGORA, com o fato distante, essas múmias do passado tentam distorcer os cenários e os personagens daquela época, repetindo a mesma ladainha de demonização dos jovens de esquerda, classificando-os de “terroristas”, quando na verdade eram eles que aterrorizavam, torturavam, detinham o canhão, o poder, e podiam nos calar, proibir, censurar, matar, esquartejar e jogar nossos corpos, de nossos filhos, pais, irmãos, no mar... E MENTIAM, mentiam, mentiam, não revelando às mães sofredoras o paradeiro de seus filhos ou ao menos de seus corpos. Que história triste! Eles podiam tudo, e quem quisesse reclamar que fosse se queixar ao bispo... ELES TINHAM para eles as melhores diretorias, nas empresas públicas e privadas, eram praticamente uma imposição ao empresariado — coitado de quem não contratasse um apadrinhado — e data daquela época esse comportamento distorcido e desonesto, de desvios e privilégios, que levou nosso país ao grau de corrupção que, só agora, com liberdade da imprensa, para denunciar, da Polícia Federal, para apurar, do MP, para agir, nos é revelado...

DE MODO cínico, querem comparar a luta democrática com a repressão, em que liberdade era nenhuma, e tentam impedir a instalação da Comissão da Verdade e Justiça, com a conivência dos aliados de sempre... QUEREM COMPARAR aqueles que perderam tudo — os entes que mais amavam, a saúde, os empregos, a liberdade e, alguns, até o país — com aqueles que massacraram e jamais responderam por isso.

Um país com impunidade gera impunidade. A história estará sempre fadada a se repetir, num país permissivo, que não exerce sua indignação, não separa o trigo do joio... TODOS OS países no mundo onde houve ditadura constituíram comissões da Verdade e Justiça. De Portugal à Espanha, passando por Chile, Grécia, Uruguai, Bolívia e Argentina, que agora abre seus arquivos daqueles tempos, o que a gente, aqui, até hoje não conseguiu fazer... QUE MEDO é esse de se revelar a Verdade? Medo de não poderem mais olhar para seus próprios filhos? Ou medo de não poderem mais se olhar no espelho?...



5 de janeiro de 2010

Olha ali um "projeto" voando...

Quem deu uma lida nos portais de notícias deve ter visto a notícia que falava da preferência da FAB pelo avião sueco Saab Gripen NG na concorrência para aquisição do novo caça para suprir a defesa aérea brasileira, deixando para trás o americano F-18 e o francês Rafale, nesta ordem.

Quem detonou o assunto foi a repórter Eliane Catanhêde, da Folha, neste artigo, onde ressaltava que a cúpula do governo é favorável ao caça francês, o que criaria um tremendo abacaxi a ser descascado por Lula. (Os sem-Folha podem ler aqui.)

Lá no meio do artigo, a jornalista diz que o caça sueco está "ainda em fase de projeto". Esse mesmo tipo de afirmação eu já havia visto em diversos outros órgãos de imprensa e sites.

Pois não é que esse deve ser um daqueles raros casos de "projeto" que voa?

Dando uma lida no blog Poder Aéreo (para os interessados em aviação militar, um prato cheio) encontrei isto aqui:



Nada menos que um Gripen NG decolando e, pasmem, com dois oficiais da FAB nos comandos.

Para algo que é apenas um projeto, até que ele vai muito bem, não concordam?

Ah! A nossa imprensa...


P.S. Recomendo também a leitura deste post do Poder Aéreo, que coloca algumas observações pra lá de pertinentes sobre o tema e a nossa política interna.

29 de dezembro de 2009

Final de expediente

Foi um ano movimentado este 2009...

Não posso reclamar de monotonia.

OK, o trabalho não chegou a ser um desafio, mas passou longe da letargia. E a vida pessoal foi tranquila, mas corrida, muito corrida (parece uma contradição, mas não é...).

Quanto ao mundo virtual, reconheço um certo desânimo (alguns chamam de preguiça...). Aliás, não sou só eu. Vários blogs de qualidade encerraram (por diferentes razões) suas atividades, definitivamente ou não, e muitas das boas cabeças reduziram sua participação na rede.

Lá pelo meio do 2º semestre, resolvi reativar o blog esportivo, até para que a minha paixão pelo tema servisse de empurrão para manter a assiduidade. Não funcionou muito bem, mas não entreguei os pontos... Ainda.

Enfim, para um ano que em seu início ameaçava ser muito sofrido, com a tão falada crise mostrando os dentes, até que o saldo não chegou a ser lamentável. Digamos que foi um ano mediano, não medíocre.

Resoluções para o Ano Novo?

Talvez não deixar este espaço abandonado por tanto tempo...

Afinal de contas, os meus famosos (e nunca suficientemente honrados) 1,9 leitores merecem um mínimo de consideração... E porque 2010, como ano de eleições e de Copa do Mundo, promete ser mais agitado.

Um bom Ano Novo para todos.

Que a clemência, a misericórdia e a amizade estejam no coração de cada um, como fermentos para a paz e para a justiça.


8 de dezembro de 2009

"Bohemian Rhapsody" by The Muppets

União de duas coisas de que sempre gostei demais: os Muppets e a canção Bohemian Rhapsody, do Queen.

Irresistível.


26 de novembro de 2009

Ajudantes de Papai Noel - 2009

Está chegando o final do ano, aquela época de confraternizações e troca de presentes, freqüentemente por obrigação, não é ?

ERRADO !!!

Na realidade, está chegando a hora de mostrar o seu lado genuinamente bom (acreditem, todos temos um...), ajudando a fazer que o Natal de quem é menos favorecido seja um pouco mais alegre. Neste ano, principalmente, com a crise ainda cobrando seu preço e as tragédias naturais tendo feito um estrago pra lá de considerável, o apelo fica redobrado.

Muitas são as formas: fazendo trabalho voluntário em instituições que atendem crianças, idosos ou moradores de rua, doando bens ou dinheiro para essas instituições, etc.

Novamente, a minha sugestão é o programa "Papai Noel dos Correios".

É o seguinte: todos os anos os Correios recebem milhares de cartinhas que crianças enviam para Papai Noel. No início, muitos anos atrás, os funcionários dos Correios abriam as cartas e as respondiam. Aos poucos foram aparecendo casos em que as cartinhas eram tão tocantes que era impossível ficar só na resposta escrita, o que levava alguns desses funcionários a se cotizarem para adquirir presentes para entregar aos remetentes. Para isso, muitas vezes, um dos funcionários se vestia de Papai Noel, e o momento da entrega era de uma emoção sem paralelo. A notícia dessas ações foi se espalhando, o número de cartas foi crescendo, e a partir de 1994 a direção dos Correios resolveu institucionalizar a prática e possibilitou que o público externo pudesse "adotar" cartinhas, entregando os presentes nas agências dos Correios, o qual se encarrega de realizar a entrega.

Nem preciso falar mais. Tire seu traseiro (e o resto do corpo também) da frente do computador e vá procurar as agências onde estão as cartinhas. Escolha uma, ou então pegue sem olhar. Qualquer dúvida, este é o link da página com os telefones de contato em cada estado.

Corra que o prazo é curto.

Se por acaso você tem um blog ou página em um site de relacionamentos (Orkut, My Space, Facebook, etc.) , está intimado a ajudar a divulgar essa ação. Um toque via Twitter (ou correlatos) ou então por e-mail para seus amigos também é uma boa.

Papai Noel está recrutando voluntários. Por que não você?




P.S. Se você é um leitor atento e frequente deste espaço, deve ter notado que eu peguei o post dos anos passados, dei uns ajustes e republiquei. Não era preciso reinventar a roda, né?

22 de novembro de 2009

Levanta, socode a poeira e dá a volta por cima

Duas canções, para não ter que dizer mais nada (além do que disse bem ali):

When you walk through a storm
Hold your head up high
And don't be afraid of the dark
At the end of the storm
There's a golden star (sky)
And the sweet silver song of a lark

Walk on...
Through the rain...
Walk on...
Through the rain
Walk through the wind
And your dreams be tossed and blown...

Walk on... (walk on)
Walk on... (walk on)
With hope (with hope)
In your heart...
And you'll never walk alone
You'll never walk alone.
Alone...

Walk on... (walk on)
Walk on... (walk on)
With hope (with hope)
In your heart...
And you'll never walk alone
You'll never walk alone.
Alone...

You'll never...
You'll never walk alone...

Walk on... (walk on)
Walk on... (walk on)
With hope (with hope)
In your heart...
And you'll never walk alone
You'll never walk alone.
Alone...

You'll never walk...
You'll never walk alone...

(You'll Never Walk Alone)
(Rodgers e Hammerstein)




Amigo é coisa pra se guardar
Debaixo de sete chaves
Dentro do coração
Assim falava a canção
Que na América ouvi
Mas quem cantava chorou
Ao ver seu amigo partir
Mas quem ficou
No pensamento voou
Com seu canto que o outro lembrou
E quem voou
No pensamento ficou
Com a lembrança que o outro trancou

Amigo é coisa pra se guardar
No lado esquerdo do peito
Mesmo que o tempo e a
Distância digam não
Mesmo esquecendo a canção
O que importa é ouvir
A voz que vem do coração

Pois seja o que vier
Venha o que vier
Qualquer dia amigo eu volto
Pra te encontrar
Qualquer dia amigo
A gente vai se encontrar

(Canção da América)
(Milton Nascimento e Fernando Brant)


20 de novembro de 2009

A Palestina busca o seu Mandela

O presidente da Autoridade Nacional Palestina, Mahmoud Abbas, está em viagem pela América do Sul, incluindo Brasil, Argentina e Chile. Aqui ele conversou com Lula na busca de apoio para a causa do povo palestino em sua busca por um estado independente.

Abbas recentemente concordou em adiar as eleições palestinas, que seriam em janeiro de 2010, pela impossibilidade de realizá-las em Gaza de uma forma livre, muito por culpa do Hamas, mas também de Israel. As mesmas eleições para as quais ele próprio demonstrou a intenção de não concorrer.

Conhecido como um dos mais moderados líderes palestinos, e dotado de um carisma quase nulo, Abbas meio que reconheceu sua impotência para fazer andar as negociações de paz na região. Visto por boa parte de seu próprio povo como o "homem de confiança" dos Estados Unidos, ele provavelmente procura com seu gesto provocar algum tipo de atitude do Ocidente, especialmente no que trata da expansão dos assentamentos judeus na Cisjordânia e em Jerusalém Oriental.

Poucos meses atrás, li uma matéria que citava declarações do historiador israelense Tom Segev à revista alemã Der Spiegel, na quais ele demonstrava total desolação com o presente e o futuro das relações entre israelenses e palestinos. Adepto da convivência pacífica, Segev praticamente não vê como o atual impasse possa ser rompido.

A única saída que ele enxerga incluiria um passo absolutamente ousado por parte do governo israelense: libertar Marwan Barghouti e permitir que ele tome a frente das negociações pelo lado palestino. Sem exageros, seria algo similar a decisão tomada pelo governo sul-africano quando pôs Nelson Mandela em liberdade.

O maciçamente popular político, e que foi o lider militar do Fatah durante as duas Intifadas, está preso em Israel desde 2002 cumprindo 5 penas de prisão perpétua, acusado de ataques a civis e militares israelenses. Para se ter uma ideia da popularidade de Barghouti, cinco anos atrás, quando das últimas eleições presidenciais palestinas, mesmo de dentro da prisão ele liderava com folga todas as pesquisas de opinião, e teria sido eleito com uma maioria esmagadora sobre seus adversários. Porém, resolveu apoiar Abbas, que venceu. Recentemente, ele foi eleito para o comitê central do Fatah com votação consagradora, e é profundamente respeitado mesmo pelas facções rivais.

Dentro do movimento palestino, ele é a voz mais respeitada dentre aqueles que defendem a solução dos "dois estados", com respeito às fronteiras anteriores à 1967 (com uns poucos ajustes), e convivência pacífica daí em diante. Mas até esse dia chegar, ele insiste no direito dos palestinos resistirem à ocupação.

Esta semana foi publicada uma entrevista de Barghouti para a Reuters, feita por escrito e contrabandeada para fora da prisão por seus advogados.

Eis alguns dos principais pontos da entrevista:

- A divisão entre Fatah e Hamas é uma tragédia. Na atual situação política da região, as diferenças entre os dois grupos não são fundamentais, especialmente na ausência de um parceiro israelense para a paz.
- O Hamas precisa aderir de fato a iniciativa egípcia de reconciliação, o que garantiria as eleições legislativas e presidenciais.
- Se ocorrer a reconciliação das facções palestinas, e consequentemente as eleições, ele tomara uma decisão sobre concorrer ou não.
- Ele pediu uma "campanha popular' contras a expansão dos assentamentos, a "judaização" de Jerusalém Oriental, o bloqueio de Gaza, o confisco de terras e o Muro de separação.
- Essa campanha não incluiria ataques contra civis israelenses, nem lançamento de foguetes contra o território de Israel, o que Barghouti condena já faz um bom tempo.

A expectativa vem aumentando nas últimas semanas tendo em vista o avanço nas negociações para a libertação do soldado israelense Gilad Shalit, sequestrado por militantes palestinos em 2006 e até hoje preso em algum lugar em Gaza.

O preço para sua libertação incluiria a saída das prisões israelenses de um bom número de palestinos. O nome de Marwan Barghouti encabeça todas as listas de possíveis libertados.

Resta saber se o atual (ou qualquer outro) governo de Israel teria coragem e a vontade política para dar o passo decisivo.

É aí que pode e deve entrar o governo americano, pressionando por soluções que atendam verdadeiramente os interesses dos Estados Unidos, e não apenas os de uma minoria radical que mistura direitistas em Israel e nos Estados Unidos.


18 de novembro de 2009

Jaques Vergès, o Advogado do Terror

Como já falei anteriormente, faz um bom tempo que, por diversas razões, quase não saio de casa para ir ao cinema. A principal é o comodismo. Prefiro esperar que os filmes passem na TV por assinatura. Em alguns casos, quando o interesse é um pouco maior, alugo o DVD. Reservo a ida ao cinema apenas para obras muito relevantes, sempre pela minha ótica bem particular. Por exemplo, este ano fui ao cinema apenas uma vez, audaciosamente indo...

Neste espaço já tive a chance de comentar interessantes obras que encontrei acidentalmente na grade de programação das emissoras de TV. Digo acidentalmente porque não costumo sair vasculhando guias de programação ou coisa do tipo. No máximo, quando vejo a chamada de algo interessante, me programo para assistir.

Alguns dos melhores filmes que assisti nos últimos tempos coincidiram de ser europeus, tanto de ficção quanto documentários. Houve até uma fase pesadamente alemã, a que se somaram filmes ingleses e espanhóis. Confesso que o cinema de ficção francês nunca me interessou particularmente, sempre me soou meio arrastado, com atuações forçadas. Às vezes uma ou outra cinebiografia ou então um semi-documentário chamam minha atenção, e só.

Desta vez, confesso, fiquei realmente impressionado. Um documentário francês de pouco mais de 2 horas sobre um personagem que mereceria muito mais, talvez uma série (na França existe uma verão em DVD com quase 4 horas).

Falo de "O Advogado do Terror", filme de 2007 dirigido por Barbet Schroeder, e que tenta jogar uma luz sobre um dos mais intrigantes personagens da segunda metade do século XX e do início do século XXI. Falo de Jaques Vergès, um advogado francês, de ascendência vietnamita por parte de mãe, e famoso por ter um dos portfólios de clientes mais controversos da história do Direito.

Para que vocês possam ter uma ideia, ele ficou famoso nos anos 50 defendendo militantes argelinos que participavam da luta armada anticolonialista contra a França. Depois disso, ele defendeu, dentre outros: militantes palestinos presos em Israel e na Europa, membros do grupo alemão Baader-Meinhof, o famoso terrorista Carlos, o Chacal (além de outros membros do grupo), o Ayatollah Khomeini, o carrasco nazista Klaus Barbie, os líderes do Khmer Vermelho e meia dúzia de ditadores africanos, além de ter se oferecido para defender Slobodan Milosevic e Saddam Hussein. Por isso tudo a mídia costuma chamá-lo de "O Advogado do Diabo", e ele parece se divertir com isso.

O filme é particularmente instigante porque tenta (e consegue) não fazer nenhum juízo de valor sobre Vergès, deixando totalmente a cargo do espectador fazê-lo. Há uma enorme quantidade de depoimentos contra e a favor, além de alguns que deixam mais coisas subentendidas do que claras.

Por exemplo, um membro dos serviços secretos franceses deixa transparecer que Vergès poderia ter sido, em certo período, colaborador dos órgãos de segurança da França. Outros depoimentos, apesar de não confirmarem, não conseguem apagar a suspeita de que ele tenha ficado certo período no Cambodja assessorando Pol Pot, o líder máximo do Khmer Vermelho e responsável, direta ou indiretamente, por mais de 1 milhão de mortes.

Outra boa faceta do filme é que ele permite que conheçamos melhor alguns episódios que nunca foram bem explanados aqui no Brasil, ou em alguns casos são quase desconhecidos.

Vale a pena destacar dois deles. O primeiro mostra como o governo Mitterand foi chantageado pela organização do Chacal para que libertasse dois de seus membros que estavam presos. Para conseguir seu intento, eles promoveram uma campanha de atos terroristas, quase sempre atentados á bomba, que mataram dezenas de inocentes.

O segundo é mais remoto, porém ainda mais trágico. Trata-se dos acontecimentos ocorridos no dia 8 de maio de 1945 (e nos seguintes) na cidade argelina de Setif e em mais algumas das proximidades. Embalados pela vitória aliada contra os nazistas (lembrem: 8 de maio foi o dia exato da rendição alemã), uma multidão de argelinos foi às ruas em comemoração e pedindo mais liberdade em seu país. A manifestação, que era autorizada, começou de maneira pacífica, com a multidão cantando músicas nacionalistas. Entretanto, aos poucos foram aparecendo bandeiras argelinas, o que era proibido. A polícia tentou confiscá-las de maneira violenta, e acabou atirando contra a multidão, matando grande número de manifestantes. A multidão, que passava por um bairro habitado por colonos franceses (os pied-noir), resolveu revidar violentamente contra os civis europeus, matando várias dezenas.

A reação do governo colonial, e aprovada por De Gaulle, foi brutal. Tropas do exército e da polícia, auxiliados por milícias formadas pelos colonos franceses, e com apoio de bombardeios aéreos e, pasmem, navais, fizeram um banho de sangue. O número exato de vítimas jamais será conhecido, mas as estimativas mais acreditadas, feitas por estudiosos franceses, variam entre 6000 e 20000 mortos. O consulado geral americano chegou a falar em 45000 vítimas, mas parece ser um número exagerado. Foi este episódio que pavimentou o caminho para a insurreição geral contra a ocupação francesa que começaria 9 anos depois.

Voltando ao filme, recomendo com ênfase. Mas aviso: não é uma obra fácil de digerir.

12 de novembro de 2009

Fechando um ciclo

(A partir de agora, sempre que quiser falar sobre esportes, o farei usando o Torcedor Obsessivo Compulsivo, um blog alternativo. Algumas vezes, quando considerar que o assunto transcende os limites do puramente esportivo, replicarei o post aqui no De Olho. O que é o caso deste.)



É bem comum, além de claramente compreensível, que muitos de nós usem como flagrante da passagem dos anos o crescimento dos próprios filhos. Acompanhar cada etapa da evolução deles acaba nos fazendo relembrar os nossos próprios momentos.

Olhar para os meus indomáveis rebentos em suas lutas e descobertas de cada dia mexe bastante comigo. Óbvio que quase todo pai pode (e deve) dizer a mesma coisa, Mas no meu caso a diversidade de idades, especialmente entre a caçula e os dois mais velhos, torna tudo mais colorido e desafiador.

Mas do que eu realmente gostaria de falar hoje não tem a ver com eles (pelo menos não diretamente). Tem a ver com a minha própria infância e adolescência, e como a paixão pelo futebol me impregnou de modo definitivo.

O que desencadeou essa vontade de tocar no tema foi um acontecimento triste. No último dia 09 faleceu, aos 58 anos, Francisco Gomes de Sousa, o Chinesinho, vítima de complicações advindas de uma hepatite.

Quem não é aqui da terrinha, ou não acompanhou o futebol cearense dos anos 70, provavelmente nunca ouviu falar desse volante de futebol clássico e de um pulmão invejável. Quando eu falo volante, por favor não queiram visualizar essa enxurrada de brutamontes que povoou a cabeça-de-área do futebol mundial e brasileiro nos últimos 25 anos, especialmente após a derrota da seleção de 82. Chinesinho era daqueles marcadores que raramente apelava para as faltas. Ele antecipava as jogadas, tirando partido da velocidade.

Para mim, o ponto alto de Chinesinho coincidiu com o ápice de uma das melhores equipes que o Fortaleza já formou, aquela que conquistou o bicampeonato de 1973/1974. O técnico Moésio Gomes adotou um esquema que acabou batizado por Quadrado de Ouro, por utilizar no meio-de-campo 4 jogadores diferenciados: Chinesinho, Zé Carlos, Lucinho e Amilton Melo. Um volante tipo "carregador de piano" (Chinesinho), outro volante com excelente capacidade de sair jogando e chutar em gol (Zé Carlos), um meia muito habilidoso mas também rápido (Lucinho) e outro meia para o qual o adjetivo craque não era exagerado (Amilton Melo). Tudo isso servindo dois atacantes, que poderiam ser um centro-avante ágil (como Marciano), ou um tipo "rompedor" (como Beijoca), ou ainda dois do tipo veloz (como Geraldino ou Haroldo).

Chinesinho era o último remanescente vivo daquele meio-de-campo. Todos os outros faleceram relativamente jovens.

Eu sei. Para muitos de vocês que não são fãs de futebol esse texto deve estar parecendo algo como um tratado arqueológico sobre as primeiras povoações humanas no Himalaia do Leste (desafio alguém a matar de onde tirei isso...). Um pouco de paciência, por favor, pois neste caso o futebol é apenas um meio, não um fim.

Voltando a aquela equipe de 73/74, ela me pegou bem na pré-adolescência. Eu já torcia pelo Fortaleza desde bem pequeno, mas até ali nunca havia sentido uma emoção daquele tipo que deixa marcas. O título de 73 foi gostoso, mas nada comparável ao que aconteceu em 1974.

Para ser sucinto: o grande rival venceu o 1º turno e foi para o último jogo do 2º turno jogando pelo empate. Ou seja, o bicampeonato transformou-se em algo quase inatingível.

Quase. Porque o Fortaleza venceu 3 vezes em sequência (4x0, 1X0 e 3X1), tudo no espaço de uma semana.

Imaginem agora o efeito que algo assim teve sobre aquele garoto gordinho, baixinho, de fala rápida, introspectivo e, como até hoje, passional. É daquelas coisas que ajudam a moldar que tipo de pessoa você será, e que ensina que o impossível quase nunca é tão impossível assim.

Além de ser o tipo de coisa que ajuda a apreciar aqueles momentos em que o filho homem está junto comigo, no sofá de casa, torcendo alucinadamente frente à televisão, às vezes varando a madrugada.

Para encerrar, dói um pouco escrever sobre isso nas vésperas de um possível (e provável) rebaixamento para a Série C.

3 de novembro de 2009

Atuk, ou a maldição de um roteiro de cinema

Era uma vez um escritor canadense chamado Mordecai Richler, que publicou em 1963 um livro contando as divertidas peripécias de um esquimó na cidade grande.

O livro, The Incomparable Atuk, fez relativo sucesso na América do Norte, e despertou a atenção de Hollywood, que viu no material a possibilidade de servir de base para uma boa comédia.

O roteirista Peter Gzowski tratou de fazer uma adaptação no início dos anos 80 e deu ao roteiro o nome de Atuk (Avô, em Inuit).

E é aqui que começa a nossa história, no mínimo inusitada.

Gzowski escreveu o roteiro tendo em mente um ator específico para o papel principal, seu amigo John Belushi. Belushi leu o roteiro e entusiasmou-se com o projeto.

Entretanto, em 05 de março de 1982, ainda durante os estágios iniciais de pré-produção, Belushi foi encontrado morto vítima de overdose.

O acontecimento paralisou o projeto por alguns anos, até que em 1988 o comediante Sam Kinison aceitou fazer o papel principal. A produção avançou, e as filmagens chegaram a ser iniciadas. Entretanto, Kinison começou a demonstrar insatisfação com o roteiro e exigiu que fosse parcialmente reescrito, o que levou a paralisação da produção e desencadeou uma disputa judicial que se arrastou por vários meses, até que Kinison foi demitido.

Pouco tempo depois, em 10 de abril de 1992, Kinison morreu em um acidente de carro.

No início de 1994, depois de algumas sondagens, o roteiro foi enviado para o também comediante John Candy, que demonstrara interesse no papel.

Inesperadamente, Candy sofreu um fulminante ataque cardíaco em 04 de março de 1994.

As coisas tornaram a ficar paradas até 1997, quando outro comediante conhecido, Chris Farley resolveu ler o roteiro e entrou em negociações para aceitar o papel.

Porém, Farley seguiu o caminho de seu ídolo, John Belushi, e morreu vítima de uma overdose em 18 de dezembro de 1997.

Antes de falecer, porém, Farley mostrou o roteiro para um amigo, o também comediante Phil Hartman, e o convidou a participar do projeto em um dos papéis coadjuvantes.

Alguém quer advinhar o que aconteceu? Facil. Hartman foi assassinado pela esposa em 28 de maio de 1998.

De lá para cá o roteiro está dormindo em algum arquivo em Hollywwod, e nenhum comediante gordinho fala mais em levá-lo às telas encarnando o protagonista.

Maldição, lenda urbana, apenas coincidência, seja lá qual for o nome que se deseje dar, está é uma daquelas histórias que reforçam o velho ditado espanhol:

Yo no creo en las brujas, pero ...