13 de maio de 2009

O Rio e as Olimpíadas de 2016, Fortaleza e a Copa de 2014

Muito se tem falado sobre a candidatura do Rio de Janeiro para sediar os jogos Olímpicos de 2016.

Aqui dentro do Brasil a discussão está polarizada entre os que apoiam a candidatura (basicamente os governos estadual e municipal do Rio, o Comitê Olímpico Brasileiro, a Rede Globo, o empresariado ligado ao turismo e a construção civil e, em uma escala levemente menor, o governo federal), e aqueles que são críticos ao projeto (parte da imprensa e instituições da sociedade civil ligadas ao esporte e a transparência nos gastos públicos).

Pessoalmente sou contra o projeto, especialmente por ele ser tocado por um órgão (o COB) que já deu demonstrações inequívocas de incapacidade para gerenciar recursos e formatar planos que resultem em efetivos avanços para o esporte nacional e para o conjunto da sociedade. Isso se agrava a partir do momento em que se juntam a ele grupos políticos e econômicos cujo histórico é nada recomendável. Foi essa reunião de personagens que nos deu o Pan de 2007, com orçamento largamente ultrapassado, obras questionáveis, poucos ganhos na infra-estrutura da cidade (especialmente comparado ao que foi prometido) e praças esportivas que, após os jogos, estão variando entre a quase total falta de utilização e o desvio de finalidade.

Durante muito tempo, eu estava sem saber verdadeiramente quais as reais chances da candidatura do Rio. Tudo que eu via era o oba-oba dos organizadores, mas quase nada mais isento e independente. E quase nada sabia sobre a situação das candidaturas concorrentes, de Chicago, Tóquio e Madri.

Dando uma espiada no blog FiveThirtyEight, que analisa a política americana usando sempre ferramentas matemáticas e estatísticas (já disse aqui uma vez que esse é uma das minhas manias...), dei de cara com um post intitulado Why Obama Wants the Olympics, que falava das razões para que o atual governo americano tenha desencadeado um grande lobby em favor da candidatura de Chicago.

No mesmo post, vinha a afirmação de que as quatro candidaturas estariam muito próximas nos critérios técnicos, e citava o site GameBids, especializados no assunto, como fonte. Esse site possui um índice que indica a possibilidade de sucesso de uma candidatura. Na última atualização do índice, os números foram:

Tóquio - 61,41
Rio - 59,95
Madri - 58,73
Chicago - 58,37

Ou seja, páreo duríssimo. E junto com os números vinham algumas considerações sobre cada candidatura.

Por exemplo, Chicago sofre com os astronômicos valores que seriam cobrados dos patrocinadores (principalmente numa época de crise como a atual) e também por ser a única cidade onde não há garantias governamentais totais. Tóquio fez um plano compacto e muito objetivo, e tem usado bem o crescente apoio popular e o potencial econômico da região, mas pode ser prejudicada pelo fato de o Oriente ter sediado uma Olimpíada muito recentemente (Beijing). Quanto a Madri, tem um plano muito bem elaborado, fundamentalmente baseado no que quase foi vitorioso na disputa pelos jogos de 2012, somado a excelentes garantias financeiras e boas instalações já existentes.

E quanto ao Rio de Janeiro? Sua principal força, segundo os analistas, é o fato de a América do Sul nunca haver sediado os Jogos. Um pedido para que o Comitê Olímpico Internacional dê uma chance ao continente vem revestido de grande simpatia.

Mas o mais interessante é um fato que é normalmente utilizado pelos adversários internos da candidatura, mas que pode contar a favor do Rio: o valor a ser gasto. Para alguns membros do COI, o valor previsto para os investimentos (28,8 bilhões de reais, equivalentes a 13,9 bilhões de dólares) , superior em alguns bilhões de dólares ao das outras cidades candidatas, pode parecer como algo prudente e sensato, e assim diminuir o valor de eventuais estouros orçamentários, como ocorrido em Atenas, Beijing e Londres.

Volto a dizer: sou pessoalmente contra. Temos, enquanto país, outras prioridades para tão elevados valores. Da mesma forma, considero que a Copa de 2014 será um espetáculo de queima de dinheiro público, com boa parte dele indo para os bolsos de sempre.


Aliás, quanto à Copa, tenho um desabafo mais pessoal.

Esta semana saiu o valor previsto de gastos a serem realizados pelo governo do Estado do Ceará e pela Prefeitura de Fortaleza caso a cidade esteja entre as escolhidas para sediar jogos da Copa.

Em uma cidade cheia de problemas graves, e encravada em um estado com alguns dos piores indicadores sociais do país, pensa-se em gastar 9,2 bilhões de reais. E que podem se transformar em um valor ainda maior...

Ou seja, um terço da bagatela prevista pelo Rio 2016 para, com sorte, sediar 3 partidas do evento.

Alguém aí acha isso sensato?

12 de maio de 2009

Onde foi mesmo que eu vi esse rosto?

Ah! A minha memória...

Como a esmagadora maioria das pessoas, eu tenho as diversas modalidades da minha memória em graus os mais díspares possíveis.

Sou péssimo para guardar nomes, datas e telefones. Uma verdadeira tragédia... Mas sou muito bom para guardar imagens de todos os tipos, incluindo rostos.

Juntando uma coisa com a outra, vocês podem imaginar a quantidade de pessoas que eu reconheço, mesmo após muitos anos, mas de cujo nome não tenho a menor lembrança.

E acontece, com certa frequencia, o que vou relatar agora: vejo o rosto de alguém na TV e fico pensando onde é que eu já vi esse rosto antes, ou pelo menos um muito parecido.

Domingo passado, à noite, sem muito o que fazer e zapeando pelos diversos canais, parei para assistir uma partida de beisebol. (Sim, eu entendo um pouco do jogo e até gosto...)

A partida em questão era entre o Boston Red Sox e o Tampa Bay Rays, e na transmissão da TV americana eles incluem um bate-papo com com os técnicos durante os intervalos do jogo. Primeiro foi o do Tampa Bay, e depois foram para o do Boston.

Mesmo antes da entrevista, só em mostrarem a figura do técnico, algo disparou no meu cérebro. Onde é que eu já vi essa figura?

Não demorarou nem um minuto para eu lembrar...

Aí abaixo vão as fotos. E olha que eu não achei uma boa foto do técnico usando óculos (e ele usa um de modelo muito semelhante)...





Terry Francona, técnico do Boston Red Sox, e Heinrich Himmler, o abjeto chefe da SS nazista.

9 de maio de 2009

Sua bênção

Eu sei...

Você nunca foi muito chegada a esse tipo de comemoração.

Aliás, muitas datas "festivas" tinham pra você um efeito depressor. E de alguma forma eu absorvi um pouco disso, em maior ou menor grau.

Acostumei-me a lembrar de Dia das Mães como aquela reunião na casa da vovó, onde durante a manhã passavam todos os tios e primos para festejar a matriarca. E eu, sortudo, nem precisava me deslocar: morávamos lá.

Mas um dia a D. Júlia nos deixou, e a data nunca mais foi a mesma... Por mais que eu me empenhasse em alegrá-la, sempre ficava estampado em seu rosto o desconforto, mesmo que você tentasse disfarçar.

E, um dia, exatos 23 anos atrás, chegou a hora de você nos deixar.

Eu sabia muito bem que o mal que a acometia iria cobrar seu duro preço a qualquer hora.

Mas foi uma crueldade extra ele escolher logo a ante-véspera do Dia das Mães...

Hoje em dia, quando vejo seus netos (você mal teve chance de conhecer a mais velha...) festejando a mãe, a garganta aperta e eu tento esconder aquela dor que nunca vai passar.



Sua bênção, minha mãe.


6 de maio de 2009

O golpe das listas fechadas e do financiamento público

Fiz um comentário lá no Pandorama num tópico sobre financiamento de campanhas via internet , e é adequado trazê-lo para cá:


Olha, o TSE pode ter as melhores intenções quanto a esse assunto, mas pode ser atropelado pelos fatos.

Os principais partidos políticos (inclusive da oposição) estão se preparando para votar, com as bençãos do governo, um projeto de "reforma política" (reparem que coloquei a expressão entre aspas)que é um escândalo.

Simplesmente querem instituir o voto em lista fechada e o financiamento público exclusivo das campanhas.

O voto em lista fechada significa que deixaríamos de votar nos candidatos que desejássemos e passaríamos a votar apenas no partido, que escolheria uma lista de candidatos, dos quais os primeiros seriam eleitos, de acordo com a proporção de votos de cada partido.

Ou seja, as direções partidárias ganhariam um poder gigantesco, praticamente decidindo quem seria ou não eleito. É de se imaginar que apenas os da "panelinha" teriam seus nomes colocados nas primeiras posições da lista. Na prática, a renovação das casas legislativas cairia quase a zero.

Esse tipo de proposta floresce no Congresso porque os deputados estão com medo de que, enojado pelas seguidas denúncias de corrupção e de descaso com o dinheiro público, o eleitor promova uma renovação gigantesca nas bancadas. Ou seja, os caras estão querendo preservar suas "boquinhas".

Se hoje em dia, mesmo votando em candidatos, o controle do eleitor sobre seus representante é quase nulo, imaginem votando apenas no partido. como cobrar desempenho parlamentar, ética no trato da coisa pública, postura pessoal, etc.?

Por outro lado, o financiamento público exclusivo das campanhas, apesar de vir acompanhado de uma explicação bem-intencionada (seria para igualar a chance dos candidatos e partidos, retirando a vantagem daqueles com grandes esquemas econômicos na sua retaguarda), tem diversos problemas. Como o dinheiro iria para os partidos, quem iria fiscalizar sua utilização? De onde tirar esse dinheiro (7 reais por eleitor no primeiro turno, mais 2 no segundo turno)? E como impedir que o Caixa 2 continue existindo?

As lideranças querem levar isso para votação nas próximas semanas, e se não houver uma reação da opinião pública estaremos fritos.


Bem, já disse algumas vezes que sou favorável a uma reforma política através de uma Assembleia Constituinte exclusiva (eleita só para esse fim, sem deputados e senadores) e restrita (para tratar só desse assunto).

Sei que os que defendem essa ideia ainda são minoria, mas é uma tese que considero importante e que precisa ser discutida.

Voltarei depois a esse tema com mais profundidade.


4 de maio de 2009

1 de maio de 2009

E se o presidente americano fosse Dick Cheney ?

Todo mundo (ou quase...) fala mal do (des)governo de George Walker Bush, e com toda a razão.

Mas alguém já parou para imaginar se, em vez de Bush, o presidente americano fosse Dick Cheney? O que poderia ter acontecido?

Uma das possibilidades seria a materialização da cena abaixo:





(Imagem retirada do game
Turning Point: Fall of Liberty )

30 de abril de 2009

Um museu emblemático

Quando eu vi a dica para esse site não consegui de deixar de pensar em duas coisas.

A primeira foi o tipo de país em que nos transformamos, onde a corrupção campeia solta. Não que isso seja exatamente novidade por estas bandas. Com a colonização cartorial e predatória da qual fomos objeto, não poderia sair daí coisa muito edificante.

Mas a cambada vem exagerando, e de muito tempo...

A segunda foi que esse tipo de página é a cara do amigo Pax e seu PolíticAética, que vem fazendo um extenso e elogiável trabalho de sistematizar as notícias referentes aos diversos tipos de corrupção que assolam o país.

E que está tocando, junto com o Pedro Dória, a comunidade de blogs Pandorama.


Dito isso, bem vindos ao Museu da Corrupção:




25 de abril de 2009

Cravos que jamais murcharão



Hoje completam-se 35 anos da Revolução dos Cravos.

Liberdade para os irmãos d'além mar, enquanto nós deste lado do oceano ainda padecíamos. O que o grande Chico Buarque retratou perfeitamente.,



Exatos cinco anos atrás, nasceu um sobrinho meu.

Prometi a mim mesmo que, com o passar dos anos, iria deixá-lo a par do que aconteceu naquele 25 de abril de tantos anos antes.

E essa é uma promessa que terei todo o gosto de cumprir.

20 de abril de 2009

Três toques

Em um feriado sanduichado, passamos apenas para tocar em temas já discutidos em outros posts.

- Os últimos dias mostraram, por atos e palavras de ambos os lados, que as relações entre os Estados Unidos e Cuba nunca mais serão as mesmas. Obama e Raul Castro se mostraram abertos ao diálogo e sem pré-condições. Bastaram alguns gestos de boa vontade por parte do governo americano (fato que havíamos previsto e desejado aqui) para que os cubanos explicitamente concordassem em tratar de qualquer tema.
Não sou cético quanto as possibilidades de sucesso nesse diálogo. Não será simples, mas é o tipo de conversa em que ambos os lados tem muito a ganhar em caso de êxito, e os dois ficarão em má situação em caso de fracasso.
Castro sabe muito bem que Obama é a melhor chance que os comunistas cubanos têm de fazer uma transição controlada (já vi acontecer isso em algum lugar...). E Obama sabe que os interesses americanos, políticos e econômicos, só tem a ganhar com a normalização de relações entre os dois países.
Volto a dizer o que falei aqui ainda no ano passado: o congresso do PC Cubano, no segundo semestre deste ano, pode ser o ponto decisivo para as mudanças na ilha. Até lá, observemos as jogadas que os dois lados farão nesse tabuleiro de xadrez...

- Em relação ao tratado no post anterior, está se confirmando o que era apenas uma suspeita: o autor do tiro que matou a universitária Nádia Brito foi mesmo um policial militar que voltava do serviço e era passageiro de uma van apedrejada por vândalos travestidos de torcedores.
Ou seja, ao que já era uma monstruosidade juntamos um retrato acabado da incompetência e despreparo das forças policiais. O que, para ser honesto, não é nenhuma novidade...

- Pra terminar, um assunto mais ameno. Todo blogueiro tem um post (às vezes mais de um...) que é para ele o que "Conceição" é para Cauby Peixoto. Em todo show do artista tem alguém pedindo que ele cante a canção que é sua marca registrada. Da mesma forma, cada blogueiro tem aquele post que todo dia é objeto de busca via Google ou similares. Aos poucos, ele se transforma no post mais visto do blog, às vezes superando outros que o autor considera mais relevantes e que foram até linkados por outros blogueiros.
Frequentemente, esses posts tem um tema em comum: mulheres. Do presente ou do passado, elas atraem uma legião de leitores. Por exemplo, o Hermenauta será para sempre grato à Leila Lopes e Heidi Klum. E este humilde escriba tinha (e tem...) uma dívida de gratidão com Cyd Charise.
Porém, de algumas semans para cá, detectei um novo campeão de procuras. Senhoras e senhores, eis a nova fada-madrinha(opa...) do De Olho: Sasha Grey e seus múltiplos atributos.
Que o Todo Poderoso a proteja.

17 de abril de 2009

Tragédia que se repete

Cerca de 10 meses atrás, escrevi esse post sobre um caso de violência envolvendo torcidas de futebol aqui na terrinha.

De lá para cá, ocorreram centenas de episódios violentos por todo o país, vários deles fatais, e sobre os quais muito já se falou (e falará). Mas aqui na província, fora os persistentes conflitos entre as gangues uniformizadas nos dias de clássicos, nada de mais sério havia ocorrido.

De repente, e exatamente em um dia em não se esperava que problemas acontecessem, eis que nova tragédia abalou a cidade.

Nádia Brito, uma universitária de 22 anos foi atingida na cabeça por uma bala perdida na saída do campus da UECE na noite de quarta-feira passada, dia 15. Ela está internada em uma UTI em estado classificado pelos médicos como desesperador.

O campus fica em uma avenida que dá acesso ao Estádio Castelão, e ao lado da saída fica uma praça conhecida pelos conflitos em dias de jogos. Tanto que a Polícia Militar normalmente desloca para lá um contingente para prevenir problemas.

Entretanto, como o jogo de quarta-feira era de uma torcida só (Fortaleza X Paraná, pela Copa do Brasil), a PM achou que não haveria problemas e não enviou seu pessoal para o local. Ocorre que ônibus e vans transportando torcedores que saiam do jogo foram apedrejados na passagem pela praça. Bem no momento em que a estudante saia ouviu-se um tiro e ela caiu ensanguentada.

A história está detalhada aqui e aqui.

Existe a versão de que um policial, que estaria em uma van, teria efetuado o disparo. O que seria o mais sórdido dos complementos para uma história totalmente trágica.


Ficam aqui minhas preces pela vida de Nádia.

Preces essas que ganham um tom ainda mais pessoal quando lembro que minha filha, quase da mesma idade, estudou por dois anos nesse campus, e tomava condução para casa nessa mesma praça.


ATUALIZAÇÃO (17/04 , 13:10) : Foi anunciada pelos médicos, pouco antes do meio-dia, a morte cerebral de Nádia.

15 de abril de 2009

Dizer o quê?

A sempre brilhante Fal achou isto aqui em algum lugar da mídia impressa.

Nem precisaria, mas vale ressaltar as primeiras frases, ou seja, o anúncio que é o coração da matéria:


"Formação de pastor a R$ 600, mestre de Bíblia a R$ 1300 e doutor em divindade a R$ 1500. Faça o curso por correspondência e tenha sua própria igreja. Em 90 dias receba o diploma e a carteirinha em casa."


Precisa dizer mais alguma coisa?

11 de abril de 2009

Tocando no banheiro

Calma. Não é isso que alguns pensaram...

Mas dêem uma olhada neste vídeo:



O ano era 1985, e o genial Buddy Guy apresentou-se no 150 Night Club do Hotel Maksoud Plaza, em São Paulo, com direito a tudo o que o vídeo mostra.

Incluindo um passeio pelos banheiros da casa de shows enquanto tocava Going Down...

Lembro que tive o privilégio de assistir a exibição do show poucos dias após, em TV aberta. Bons tempos...

Reassistindo agora, fica a pergunta: depois de quase 24 anos, onde andarão os espectadores deste histórico show? Se alguém se reconhecer ali, não se faça de rogado, dê sinal de vida.



P.S. Aqui estão a parte 1, parte 2 e parte 4 do mesmo show.

2 de abril de 2009

Aviso é aviso...



(Via Failblog.org )

30 de março de 2009

Liberada a consulta às Atas do Conselho de Segurança Nacional

A notícia com certeza já saiu vários locais, mas vale repetir.

Está liberada a consulta on-line às Atas do Conselho de Segurança Nacional, desde sua criação, em 1931, até o final de 1988.

Os períodos mais recentes ainda estão cobertos pela legislação que trata do sigilo dos documentos oficiais. Da mesma forma, alguns trechos de documentos estão cobertos por tarjas pretas, por permanecerem secretos.

De qualquer modo, é um material inestimável para os interessados em conhecer parte dos meandros do poder durante mais de 50 anos, e especialmente para saber quais tipos de assuntos eram (e são) tratados nesse orgão superior de assessoria da Presidência da República.

Por exemplo, esta é a Ata da 54ª Reunião do Conselho, realizada em 27/06/1979, em que o então Presidente João Figueiredo apresenta aos membros do colegiado o Projeto de Lei de Anistia.

26 de março de 2009

Imagem emblemática


Olhem bem os rostos das duas figuras na imagem acima.

E agora me digam: algum dos dois passa um pingo de sinceridade?

Ou refazendo a pergunta: algum dos dois parece ao menos suportar a presença do outro?


Ehud Barak e Binyamin Netanyahu.

O que o apego ao poder não faz...

24 de março de 2009

A aposta arriscada de Ehud Barak

Nas eleições parlamentares em Israel realizadas em 10 de fevereiro, o eleitorado resolveu dividir as cadeiras do Knesset entre 12 partidos, mas deu vantagem aos partidos de direita e religiosos, que ganharam 65 cadeiras.

O líder do Likud, Binyamin Netanyahu, foi encarregado de formar o novo governo, mas desde então vinha tentando fugir da tentação de montar a coalizão apenas com direitistas, religiosos ou não. Sabia ele que um governo marcadamente direitista traria enormes dificuldades para Israel, especialmente perante o governo de Barack Obama. Durante algum tempo, ele tentou seduzir o Kadima, de centro, mas a atual chanceler Tzipi Livni deu-lhe um enfático “não“.

Com o tempo passando e a indefinição continuando, Netanyahu tentou uma nova cartada. Propôs um acordo ao Partido Trabalhista, de esquerda moderada, liderado pelo ex-premiêr e atual ministro da Defesa Ehud Barak.

Segundo os termos do acordo, a coalizão seria formada pelo Likud, pelos Trabalhistas, pelo Israel Beitenu (de extrema-direita) e pelo Shas (religioso). Os trabalhistas teriam direito a 5 ministérios, incluindo dois importantes, o da Defesa e o de Indústria e Comércio, além de vários cargos de 2º escalão. Acordo pra lá de generoso para os escassos 13 votos dos trabalhistas no parlamento de 120 cadeiras.

Ontem, segunda-feira, Barak aceitou o acordo, mas trouxe a palavra final para o Comitê Central do partido. Hoje, esse órgão se reuniu e mostrou o tamanho do racha do partido. Os opositores do acordo acusaram Barak de jogar a história do partido na lama, e de se tornar um capacho da direita. Um dos delegados chegou a falar que Ytzhak Rabin e Golda Meir deviam estar se contorcendo em seus túmulos. Já os defensores afirmavam que o papel do partido na coalizão seria de um freio contra atitudes mais radicais dos direitistas. E permitiria a não-inclusão no governo dos pequenos partidos religiosos de extrema-direita.

No fim, o acordo foi aprovado, mas a vantagem foi escassa e controversa. Segundo o Jerusalem Post, foi uma vantagem de 165 votos em 1071 votantes. Já o Haaretz fala numa vantagem menor, de 110 votos dentre 1250 votantes. Dá pra notar como tudo na política israelense é complicado, até os números.

Agora, com o acordo aprovado, fica clara a arriscadíssima aposta de Ehud Barak. Se a coalizão funcionar, e Israel não ficar em posição insustentável nas negociações de paz que o governo Obama deseja patrocinar, os trabalhistas e seu líder garantirão cacife para a luta política dos próximos anos e, talvez, décadas. Porém, se a maioria direitista impor seus pontos de vista, Barak pode estar levando seu partido para um beco sem saída,e talvez para um lugar de irrelevância no espectro político israelense.

23 de março de 2009

Eu avisei...

Tempos atrás eu falei nesse assunto, mas parece que muita gente duvidou...

Pois bem, através de uma dica do Sergio Leo (ele mesmo um membro da rede secreta...) cheguei a um site que é a prova provada do poder nas sombras que são os cearenses.

Com vocês, o Cearenses Internacionais.


De novo, abram o olho...

20 de março de 2009

Estado laico (pero no mucho...)

Nesta semana, por obrigação profissional, assisti a uma sessão da Câmara de Vereadores de uma certa cidade do interior. Não era uma sessão comum, mas uma sessão solene em homenagem a determinada efeméride. Entretanto, guardou o rito de uma sessão comum, com chamada dos vereadores, leitura da ordem do dia, etc.

Tudo muito bom, tudo muito bem, mas... Sempre tem um "mas".

Ainda no início da sessão (acho que logo após a declaração de abertura pela presidente da Câmara), fui surpreendido com o chamado para que todos se pusessem de pé enquanto uma das vereadoras ocupava a tribuna para "a leitura do texto bíblico". No caso, um trecho do Antigo Testamento que tratava de como o povo devia seguir as leis.

Quem me conhece, tanto pessoalmente como pelo mundo virtual, sabe que não sou, de forma alguma, anti-religioso. Tenho minha fé, e se não participo dos rituais de minha religião de maneira exemplar, tampouco sou totalmente avesso a eles.

Tenho, isso sim, divergências marcantes com a hierarquia da minha religião quanto a assuntos do dia-a-dia das pessoas. Considero que muitas posições dessa hierarquia não entraram nem mesmo no século XX, que dirá do século XXI. E uma das principais divergências é exatamente quanto a separação entre Estado e Religião. Tenho total crença na norma constitucional que decreta que o estado brasileiro é laico, sem exceções. E que nenhuma religião deve tentar impor suas visões de mundo sobre o arcabouço legal.

Claro que já tomei conhecimento de dezenas de episódios que infringem a norma constitucional. Especialmente a colocação de símbolos religiosos em ambiente públicos, como parlamentos, tribunais, etc. Até a invocação de Deus (mesmo de forma genérica, sem identificar a crença) para proteger a Constituição ou eventos públicos não me é desconhecida.

Entretanto, foi a primeira vez que um fato desses me chocou diretamente. Posso até ter presenciado algo similar anteriormente, mas deve ter sido um ato muito menos ostensivo, de tal forma a não chamar minha atenção.

Tenho algumas divergências com o atual governo, mas sempre admirei a forma como o Presidente Lula, assumidamente um católico, não perde a chance de, quando necessário, reafirmar a laicidade do Estado brasileiro.

É uma pena que os diferentes gestores públicos brasileiros, nas diversas esferas e nos diversos poderes, façam vista grossa para uma das mais duramente conquistadas formas de liberdade, a de ter ou não uma religião, e da não-interferência das religiões nos negócios de estado.

Aquele momento, quando a parlamentar subiu à tribuna e fez a leitura, cutucou profundamente aquele defensor das liberdades que vive adormecido dentro de mim. Após a solenidade, comentei o fato com dois colegas, e eles não haviam atentado para o significado do ato. Um deles, mais acostumado a comparecer a sessões de Câmaras de Vereadores, até disse que já tinha presenciado coisas similares em algumas outras cidades.

Afinal de contas, vivemos ou não sob a égide de um Estado realmente laico? Ou será que, como em muitas coisas neste país, a maioria silenciosa da população acaba tendo que conviver com pequenas, mas não desprovidas de importância, violações de suas liberdades fundamentais?

16 de março de 2009

Tocando à meia-boca

Ainda atravessando sérios problemas técnicos, os quais me mantém off-line a maior parte do tempo, vamos à nossa conversa de botequim:

- Nas eleições em El Salvador saiu-se vitorioso o candidato Maurício Funes, do partido FMLN, (Frente Farabundo Marti de Libertação) originado da antiga guerrilha de esquerda homônima. Isso quebra uma sequencia de vitória do partido conservador ARENA (Aliança Republicana Nacionalista), de claras ligações com grupos paramilitares de direita que combatiam as FMLN durante a guerra civil. Apesar de o candidato derrotado, Rodrigo Avila, haver reconhecido a derrota e prometido uma oposição construtiva, as palavras de ordem gritadas pelos militantes da ARENA (e que não se perca pelo nome...) não deixaram dúvidas dobre o clima de radicalização no país: "Pátria sim, comunismo não."

- Semanas atrás, o ex-presidente iraniano Mohammad Khatami anunciou sua candidatura às eleições presidenciais de junho próximo, tentando aglutinar as forças moderadas (ou reformistas) de oposição. Entretanto, dias atrás, Khatami perdeu o apoio de um importante líder reformista, o ex-prefeito de Teerã Gholamhossein Karbaschi. Karbaschi, que havia sido um dos pilares da eleição de Khatami em 1997, desiludiu-se com as políticas vacilantes do ex-presidente, e decidiu apoiar o ex-presidente do Parlamento Mehdi Karroubi. Ao mesmo tempo, anunciou-se a candidatura do ex-primeiro ministro Mir Hossein Moussavi. Ou seja, seriam pelo menos três candidatos dividindo os votos reformistas, o que poderia, em tese, facilitar as coisas para o atual presidente Mahmoud Ahmadinejad, apoiado pela linha-dura conservadora do regime.
Pois bem, segundo a agência de notícias oficial Fars, Khatami anunciou hoje que está saindo da disputa, e apoiará Moussavi. Os próximos dias deverão trazer mais luz ao que realmente ocorreu, e as consequencias nas próximas eleições. Porém, sem dúvida, é uma amostra da incapacidade das forças de oposição iranianas de se aglutinarem em torno de uma candidatura viável e com chances reais.

- No encontro de sábado com Lula, Barack Obama falou de seu desejo de, na futura visita ao Brasil, conhecer as praias do Rio e que adoraria conhecer a Amazônia, mas acrescentou: "...tenho impressão de que o Partido Republicano adoraria que eu fosse para a selva e talvez me perdesse por lá."
Lula deveria ter respondido que alguns dos líderes da oposição brasileira talvez gostassem que ele (Lula) visitasse o Alasca, preferencialmente durante o inverno...

- E um alerta pra concorrência: os novos Meninos da Vila estão chegando...

11 de março de 2009

Rostos à granel


Alguém aí se habilita a identificar as figuras retratadas acima? São todas personalidades conhecidas (ou algo assim...).

Para ver a figura ampliada, é só clicar nela ou então clicar aqui (a segunda opção é um pouco melhor).



(Fonte: Fábio Campana, via Fal)

10 de março de 2009

Velhos fantasmas que teimam em reaparecer

Tinha tudo para ser um momento de descontração antes da tempestade.

No sábado passado, e no que seria o último sábado antes de serem enviados para lutar no Afeganistão, um grupo de soldados britânicos aquartelados em uma base localizada em Massereene, na Irlanda do Norte resolveu que, mesmo sem poder sair da base, era hora de relaxar. Que tal pedir uma pizzas? A ideia era tão boa que alguns funcionários civis da base aderiram. Passaram a mão no telefone e ligaram para Domino's Pizza mais próxima.

Quando o carro da entrega chegou, um grupo de soldados e funcionários foi até o portão da base para pegar a encomenda. Nesse momento, um número não identificado de atiradores abriu fogo contra o grupo, usando armas automáticas.

Mais de 60 tiros depois, dois jovens soldados estavam mortos, e outras quatro pessoas feridas, incluindo dois empregados da rede de pizzarias. Foi o primeiro ataque mortal contra soldados britânicos na Irlanda do Norte em 12 anos.

De uma hora para a outra, os fantasmas que assombraram a província britânica durante décadas, e que estavam aos poucos sendo sepultados desde o o Acordo da Sexta-Feira Santa de 1998, e principalmente desde que os principais partidos protestantes e católicos formaram um governo de união em 2007, parecem tentar fazer o relógio andar para trás.

O atentado foi assumido por um grupo extremista republicano (e teoricamente católico) chamado Real IRA (RIRA). Ele se formou em 1997 ao redor de Michael McKevitt, que então era um dos líderes do Provisional IRA (PIRA), o principal grupo armado dos nacionalistas católicos (é o grupo que comumente conhecemos como IRA). Ele rompeu com a organização quando os principais líderes deram apoio para que ser braço político, o Sinn Fein, iniciasse as negociações de paz que, no ano seguinte, desaguariam no acordo que alterou as estruturas de governo e possibilitou o fim da luta e a deposição de armas pelos grupos militantes dos dois lados. Logo após sua criação, o RIRA tornou-se rapidamente o grupo dissidente mais importante, sobrepujando o Continuity IRA (CIRA), formado 10 anos antes. Seu ataque mais famoso (e sangrento) foi em agosto de 1998, na cidade de Omagh, deixando 29 mortos e mais de duzentos feridos.

Ontem, segunda-feira, um policial foi baleado na cidade de Craigavon, e veio a falecer. O ataque foi assumido pelo CIRA.

Este escriba foi um dos que cresceu ouvindo e lendo notícias sobre o conflito na Irlanda do Norte. Do final dos anos 60 até o acordo de 1998, muito sangue correu, e o povo da província, independente de credo religioso ou político, pagou um preço alto. No total, foram mais de 3500 mortos (mais de 1900 eram civis) e incontáveis feridos e mutilados.

Sempre simpatizei com os republicanos, e confesso que fiquei bastante satisfeito quando seus principais líderes resolveram negociar. Entre idas e vindas, os últimos 12 anos foram de avanços para a paz. Nem sempre na velocidade e na amplitude que muito desejariam, mas foram avanços. O atual estágio, onde temos um governo chefia por um unionista (protestante) moderado, que tem como seu segundo-em-comando um republicano (católico), ex-líder do IRA, é uma prova que a mesa de negociações é quase sempre mais efetiva do que o apelo às armas. Algo que, por exemplo, o grupo basco ETA e o governo espanhol ainda não conseguiram entender. Oriente Médio, bem, aí é que fica difícil de romper o ciclo de violência.

É hora de torcer para que os moderados não deixem o barco perder o rumo, e que medidas sejam tomadas para que os radicais armados sejam isolados e contidos. Firmar uma Irlanda do Norte totalmente sem violência talvez seja trabalho para mais de uma geração, quando todos os envolvidos e atingidos pelos anos negros tenham deixado de ter influência.


5 de março de 2009

Uma voz pelo Nordeste : 100 anos de Patativa do Assaré


Logo no primeiro post deste ano, lembrei que iríamos comemorar neste ano o centenário de nascimento do maior poeta popular do Brasil. Chegou a hora.

Antônio Gonçalves da Silva, mais conhecido como Patativa do Assaré, nasceu em 05 de Março de 1909 na Serra de Santana, no pequeno município de Assaré, na região Sul do Ceará. Desde cedo, em virtude da morte precoce de seu pai, teve que ajudar a mãe na roça, e isso apesar de ser cego de um olho desde os 4 anos em virtude de uma doença. Frequentou a escola por apenas alguns meses, apenas o suficiente para ser alfabetizado. Antes disso, porém, já compunha poemas, que guardava na extraordinária memória. Quando ganhou da mãe a primeira viola, adquirida em troca de uma ovelha, passou a fazer repentes e a se apresentar em festas. Daí em diante, sua longa vida foi de uma produção sem fim.

Para alguns de nós, talvez seja complicado entender o que realmente significa ser um poeta popular. Para ajudar a situar bem essa questão e onde Patativa do Assaré se insere, transcrevo um artigo do jornalista José Neumane Pinto, publicado no Estadão em 13 de Julho de 2002, cinco dias após a morte do poeta:

"A poesia sertaneja brota do chão - esturricado, quando submetido à inclemência dos longos períodos de estiagem, ou virado barro pegajoso depois de chuva. Feito milho, feijão e mandioca, da qual se extrai a farinha, que também nascem no solo do sertão, ela tem lá seus aspectos nutrientes: mata a fome de beleza no meio da paisagem cinzenta e esquálida. É épica, ao narrar proezas de valentes. Lírica, de um lirismo pungente, quando tece loas ao amor ou se debruça sobre a saga de uma raça que sobrevive heroicamente em sua luta contra as intempéries da natureza, luta que quase sempre termina em retirada, na repetição cíclica do êxodo bíblico. É feita para a dor do lamento e o gozo do riso. O poeta sertanejo é familiarizado com ritmos e cadências - há pouca diferença entre poesia e canto, embora seu cantar seja monocórdio, a palo seco, sem muita graça para ouvidos que a ele não estejam habituados. Que não se exija do poeta perícias de esgrimista da linguagem nem habilidades de pesquisador da semântica. Sua poesia serve a sua gente: descreve sua vida, ou seja seu convívio com a paisagem ou com outros viventes.
Só quem entender isso plenamente vai ser capaz de também compreender a importância de Patativa do Assaré na poesia brasileira contemporânea. O nome artístico adotado pelo cearense Antônio Gonçalves da Silva é o primeiro passo para tanto. Patativa é uma ave canora e Assaré, o lugar ermo onde nasceu, se criou e viveu a vida inteira. Cantos de Patativa, título de sua obra de estréia, da mesma forma, expressa com clareza o que pretende e a que se apresenta - trata-se de um manifesto curto, que não admite desvios nem tergiversações. O poeta, como o pássaro, canta e tem de cantar bonito, com ritmo e precisão, além de exibir ao ouvinte as ricas cores de sua plumagem.
Patativa de Assaré não pertenceu à estirpe dos repentistas, cantadores e violeiros que improvisam em diversos modos (gêneros poéticos) noites a fio para diversão de quem se reúna para ouvi-los. Mas, sim, a um tipo intermediário entre o improvisador de desafios e o poeta erudito, o tal poeta matuto: compõe seus versos escritos nos moldes dos poemas clássicos com padrões de rima e métrica bem definidos, mas usa uma linguagem simples, quase um dialeto, com o qual se comunica diretamente com o homem comum, o roceiro (que ou ficou no campo árido ou fugiu para a periferia dos centros urbanos próximos ou distantes de seu lugar de origem). Sua obra, a meio caminho entre o improviso e a elaboração erudita, é impressa, encadernada e costurada em livros, sendo o mais famoso deles o Cante lá Que Eu Canto cá, editado pela Vozes de Petrópolis em 1978 e já na 11.ª edição.
Ele também é um poeta de bancada, ou seja, escreveu folhetos de cordel, gênero ao mesmo tempo escrito e oral de poesia, contendo narrativas de grandes feitos, casos de amor ou simples palhaçadas em folhetos impressos pelos próprios autores que os narram eles mesmos, como muezins que cantam as orações nas mesquitas muçulmanas, em alto-falantes e megafones nas feiras livres do interior nordestino. É de sua autoria uma interessante adaptação do conto das Mil e Uma Noites História de Aladim e da Lâmpada Maravilhosa. E de sua lavra, a saga política do Padre Henrique e o Dragão da Maldade.

Poeta de livro e folheto, Patativa também se dedicou à composição, musicando poemas de sua própria lavra, alguns dos quais se tornaram grandes sucessos de público - como foi o caso de Triste Partida, na voz de Luiz Gonzaga, e Vaca Estrela e Boi Fubá, uma de suas toadas gravadas pelo amigo, conterrâneo e grande divulgador Raimundo Fagner. A composição musical, bem diferente do improviso poético dos violeiros, foi seu jeito de romper os limites do desprezo e do desconhecimento das grandes platéias urbanas em relação à incompreendida poesia matuta, gênero do qual foi tão príncipe (como se dizia antigamente dos melhores poetas) quanto Seu Lua foi Rei do Baião. "

E como homenagem final ao mestre, vale a pena também transcrever um dos poemas acima citados, e que toca especialmente fundo na alma nordestina:


Triste Partida

Meu Deus, meu Deus...

Setembro passou
Outubro e Novembro
Já tamo em Dezembro
Meu Deus, que é de nós,
Meu Deus, meu Deus
Assim fala o pobre
Do seco Nordeste
Com medo da peste
Da fome feroz
Ai, ai, ai, ai

A treze do mês
Ele fez experiência
Perdeu sua crença
Nas pedras de sal,
Meu Deus, meu Deus
Mas noutra esperança
Com gosto se agarra
Pensando na barra
Do alegre Natal
Ai, ai, ai, ai

Rompeu-se o Natal
Porém barra não veio
O sol bem vermeio
Nasceu muito além
Meu Deus, meu Deus
Na copa da mata
Buzina a cigarra
Ninguém vê a barra
Pois a barra não tem
Ai, ai, ai, ai

Sem chuva na terra
Descamba Janeiro,
Depois fevereiro
E o mesmo verão
Meu Deus, meu Deus
Entonce o nortista
Pensando consigo
Diz: "isso é castigo
não chove mais não"
Ai, ai, ai, ai

Apela pra Março
Que é o mês preferido
Do santo querido
Senhor São José
Meu Deus, meu Deus
Mas nada de chuva
Tá tudo sem jeito
Lhe foge do peito
O resto da fé
Ai, ai, ai, ai

Agora pensando
Ele segue outra tria
Chamando a famia
Começa a dizer
Meu Deus, meu Deus
Eu vendo meu burro
Meu jegue e o cavalo
Nós vamos a São Paulo
Viver ou morrer
Ai, ai, ai, ai

Nós vamos a São Paulo
Que a coisa tá feia
Por terras alheia
Nós vamos vagar
Meu Deus, meu Deus
Se o nosso destino
Não for tão mesquinho
Cá e pro mesmo cantinho
Nós torna a voltar
Ai, ai, ai, ai

E vende seu burro
Jumento e o cavalo
Inté mesmo o galo
Venderam também
Meu Deus, meu Deus
Pois logo aparece
Feliz fazendeiro
Por pouco dinheiro
Lhe compra o que tem
Ai, ai, ai, ai

Em um caminhão
Ele joga a famia
Chegou o triste dia
Já vai viajar
Meu Deus, meu Deus
A seca terrível
Que tudo devora
Lhe bota pra fora
Da terra natá
Ai, ai, ai, ai

O carro já corre
No topo da serra
Oiando pra terra
Seu berço, seu lar
Meu Deus, meu Deus
Aquele nortista
Partido de pena
De longe acena
Adeus meu lugar
Ai, ai, ai, ai

No dia seguinte
Já tudo enfadado
E o carro embalado
Veloz a correr
Meu Deus, meu Deus
Tão triste, coitado
Falando saudoso
Seu filho choroso
Exclama a dizer
Ai, ai, ai, ai

De pena e saudade
Papai sei que morro
Meu pobre cachorro
Quem dá de comer?
Meu Deus, meu Deus
Já outro pergunta
Mãezinha, e meu gato?
Com fome, sem trato
Mimi vai morrer
Ai, ai, ai, ai

E a linda pequena
Tremendo de medo
"Mamãe, meus brinquedo
Meu pé de fulô?"
Meu Deus, meu Deus
Meu pé de roseira
Coitado, ele seca
E minha boneca
Também lá ficou
Ai, ai, ai, ai

E assim vão deixando
Com choro e gemido
Do berço querido
Céu lindo azul
Meu Deus, meu Deus
O pai, pesaroso
Nos filho pensando
E o carro rodando
Na estrada do Sul
Ai, ai, ai, ai

Chegaram em São Paulo
Sem cobre quebrado
E o pobre acanhado
Procura um patrão
Meu Deus, meu Deus
Só vê cara estranha
De estranha gente
Tudo é diferente
Do caro torrão
Ai, ai, ai, ai

Trabaia dois ano,
Três ano e mais ano
E sempre nos prano
De um dia vortar
Meu Deus, meu Deus
Mas nunca ele pode
Só vive devendo
E assim vai sofrendo
É sofrer sem parar
Ai, ai, ai, ai

Se arguma notícia
Das banda do norte
Tem ele por sorte
O gosto de ouvir
Meu Deus, meu Deus
Lhe bate no peito
Saudade lhe molho
E as água nos óio
Começa a cair
Ai, ai, ai, ai

Do mundo afastado
Ali vive preso
Sofrendo desprezo
Devendo ao patrão
Meu Deus, meu Deus
O tempo rolando
Vai dia e vem dia
E aquela famia
Não vorta mais não
Ai, ai, ai, ai

Distante da terra
Tão seca mas boa
Exposto à garoa
À lama e o paú
Meu Deus, meu Deus
Faz pena o nortista
Tão forte, tão bravo
Viver como escravo
No Norte e no Sul
Ai, ai, ai, ai


3 de março de 2009

Colocando na geladeira os amigos do Comandante

Apesar de tocarmos no assunto só de vez em quando, continuamos de olho nas transformações que vem ocorrendo "naquela" ilha do Caribe.

A mais recente é a mexida que o presidente Raúl Castro fez em postos-chave do governo cubano. Diversos dirigentes intimamente identificados com El Comandante perderam espaço, e foram substituídos por figuras mais próximas ao atual presidente.

Esse foi o movimento mais significativo de uma tendência que já vinha se solidificando desde meados do ano passado, em que dirigentes com carreiras mais identificadas com Raúl, e com posições "reformistas", vinham ganhando espaço frente aos defensores das posturas mais "ortodoxas" e ligados à velha-guarda do regime.

Mudanças políticas ou econômicas no horizonte mais próximo? Difícil dizer, mas o terreno está sendo preparado para o congresso do PC Cubano, que ocorrerá no segundo semestre deste ano. Ali é onde podem (e devem) ser anunciadas medidas de maior impacto. Aliás, como já havíamos previsto aqui.

Bem que o governo Obama podia dar uma mãozinha, desanuviando um pouco as relações com a ilha...

25 de fevereiro de 2009

Rescaldo pós-hibernação carnavalesca

Não se assustem, por favor, com o título deste post. É que, como alguns puderam notar, fiquei totalmente afastado da grande rede durante o feriadão, um pouco por opção e um bocado à força. Aliás, já faziam alguns dias que, por problemas no hardware domiciliar, estava levando as coisas meio que em banho-maria.

Bem, os problemas ainda não foram resolvidos totalmente (minto: falta coisa pra burro...), mas já dá pra dar alguns pitacos sobre o que andou ocorrendo nos últimos dias. Assim sendo, vamos lá, tocando de primeira.

- Eu não sei o que é mais deprimente: se a situação do PMDB, agora que dois senadores da legenda (Jarbas Vasconcelos e Pedro Simon) resolveram jogar tudo no ventilador, ou se a postura imoral da Folha de São Paulo, chamando o período de 64 a 85 no Brasil de ditabranda, e de quebra insultando dois conhecidos intelectuais que se insurgiram contra a posição do jornal. Ou quem sabe uma coisa tenha tudo a ver com a outra...

- Uma das coisas que fiz no feriadão foi assistir na TV o excelente documentário Trumbo, que conta a vida do escritor e roteirista americano Dalton Trumbo, que foi a mais conhecida das vítimas da famigerada lista negra, que tentou impedir que pessoas simpatizantes de ideias esquerdistas trabalhassem na indústria cinematográfica durante os anos negros do macartismo. Tendo que escrever sob pseudônimos durante 10 anos para poder sobreviver, Trumbo só quebrou a barreira da lista negra em 1960, quando recebeu os créditos por Exodus e Spartacus. Aliás, a cena no final de Spartacus, onde é oferecido perdão aos escravos revoltosos desde que entregassem seu líder (o que não aconteceu) é emblemática daquele período.

- Para os rubro-negros cariocas: rezem para que o meu conterrâneo (e ex-zagueiro do Fortaleza) Ronaldo Angelim volte logo à campo. O desastre de sábado passado frente ao Rezende não deixou dúvidas sobre a falta que ele faz na defesa do Flamengo...

17 de fevereiro de 2009

Parece, mas não é...


Ao contrário do que possa parecer, não é a zaga da Inter de Milão perseguindo o Alexandre Pato...


(Fonte: este site russo de fotografia. Aliás, o site-mãe é este.)

16 de fevereiro de 2009

Not a green-and-yellow submarine

Essa é daquelas notícias que passam quase despercebidas no meio de, por exemplo, um telejornal. Com tanta desgraça acontecendo ali na esquina e também mundo afora, a maioria nem se dá conta do tipo de desastre que poderia ter ocorrido:


SUBMARINOS NUCLEARES BRITÂNICO E FRANCÊS COLIDEM NO OCEANO

Dois submarinos nucleares - um britânico e outro francês - chocaram-se no Oceano atlântico, segundo informações divulgadas nesta segunda-feira.

O britânico HMS Vanguard e o francês Lê Triomphant sofreram danos graves no acidênte que ocorreu no início deste mês.

Os radares de ambos não conseguiram detectar a presença de outro submarino nas proximidades.


Atentem bem bem, não eram quaisquer submarinos: são barcos movidos á energia nuclear e armados com mísseis balísticos. Certamente dotados da mais moderna tecnologia disponível para seus países.

Agora, imaginem se um submarino brasileiro estivesse envolvido em um incidente deste tipo... O que não diria a imprensa nacional e internacional...


13 de fevereiro de 2009

Imagem sensacional


(ATENÇÃO: Esse post foi substituído. O original simplesmente "endoidou" quando fui colocar uma atualização. Vou direto pra resposta da pergunta que estava no post original.)


Na versão original deste post eu perguntava, a título de pegadinha, o quê a foto acima tem de inusitado.

A foto foi tirada na região fronteiriça entre Alemanha e Áustria (ou Tcheco-Eslováquia), no fim da 2ª Guerra, e mostra um destacamento blindado russo.

O inusitado está nos tanques.

O da direita é um T-34, o mais famoso dos blindados soviéticos usados na guerra. Já o da esquerda é um M-4 Sherman, de fabricação americana. Para quem não sabe, os ocidentais forneceram grandes quantidades de material bélico para que os soviéticos pudessem enfrentar as tropas nazistas, incluindo milhares de tanques.

Fotos mostrando tanques ocidentais sendo usados pelos russos são relativamente raras. As coloridas são mais raras ainda. A razão é que a máquina de propaganda soviética procurou vender, durante e após a guerra, a imagem de que eles haviam enfrentado e vencido os nazistas lutando praticamente sozinhos e sem ajuda. Logo, esse tipo de foto era evitada e de divulgação restrita.


12 de fevereiro de 2009

Darwin aos 200

(Hoje completam-se 200 anos do nascimento de Charles Darwin. O De Olho no Fato pediu que um dos seus melhores e mais assíduos comentaristas, que é da área, escrevesse algo sobre a data.. Com vocês, um artigo de nosso bom amigo Marcelo Darwinista.)




Classificar alguém como herói é associar esse alguém a feitos extraordinários. O dicionário Houaiss traz algumas definições de um herói:

Indivíduo notabilizado por seus feitos guerreiros, sua coragem, tenacidade, abnegação, magnanimidade etc. (...) indivíduo notabilizado por suas realizações; (...) indivíduo que desperta enorme admiração; ídolo.

Em geral, os ditos heróis são alçados a um grande patamar por seus feitos, que ultrapassam os limites habituais de homens e mulheres comuns, e dificilmente são contestados. Mas, é claro, há exceções. É exatamente o caso de Charles Darwin.

O naturalista inglês nascido há 200 anos faz parte de um grupo especial de homens e mulheres que desenvolveram teorias revolucionárias, fizeram descobertas marcantes, mudaram a história: Newton, Pasteur, Galileu, Mendel, a lista é enorme. Mas provavelmente nenhum deles foi tão questionado e atacado quanto Darwin.

Desde a publicação de A Origem das Espécies há 150 anos, e até hoje, a teoria da evolução pela seleção natural ainda provoca reações não só no meio acadêmico mas, sobretudo, fora dele. Reações, aliás, muito naturais por parte do público leigo. Afinal, a ideia da evolução demonstra ser desnecessária a participação de uma força criadora sobrenatural. Na Europa ainda muito religiosa do século XIX, uma ideia como essa foi um grande escândalo. Tivesse Darwin nascido alguns séculos antes, certamente teria ido para a fogueira nas mãos do Tribunal do Santo Ofício.

Ainda hoje grupos religiosos, especialmente cristãos, dedicam bastante tempo e recursos no combate às ideias darwinistas, buscando inclusive explicações cientificas para demonstrar a participação de Deus na dinâmica da natureza.

Uma das principais estratégias daqueles que combatem as teorias evolucionistas é relacionar os erros cometidos por Darwin. E ele realmente cometeu erros e deixou lacunas importantes.

Darwin, por exemplo, não tinha conhecimentos sobre genética, ciência que estava surgindo naquela mesma época com os experimentos de Gregor Mendel. Aliás, Darwin tinha ideias hoje em dia consideradas bizarras quanto à transmissão das características hereditárias. Ele nunca explicou de maneira convincente como as variações, sobre as quais a seleção natural atua, eram passadas de pais para filhos. Um erro que talvez tivesse sido corrigido, se ele tivesse lido os trabalhos de Mendel. E não foi por falta de oportunidades.

Mas, apesar da fragilidade que pretendem comprovar a respeito de sua teoria, Darwin demonstrou de maneira brilhante e inequívoca que as espécies se transformam ao longo do tempo. A evolução biológica é tão fartamente comprovada e documentada que o meio acadêmico há muito tempo não debate mais se ela ocorre ou não, e sim de que maneira ocorre.

Cento e cinquenta anos de questionamentos seriam mais que suficientes para derrubar a teoria da evolução, caso ela estivesse completamente equivocada. Mas, ao contrário, toda a Biologia, hoje em dia, é fundamentada nos pressupostos evolutivos. Como disse Dobzhansky, em uma das citações mais famosas das ciências biológicas, “nada em Biologia faz sentido exceto à luz da evolução”.

Darwin é, sem dúvida, o maior herói da Biologia moderna. Seus 200 anos de nascimento devem ser celebrados, mas ainda mais os 150 anos da publicação de sua maior obra, que como nenhuma outra na história da Ciência iluminou a estrada do conhecimento humano.

11 de fevereiro de 2009

Quem votou em quem nas eleições em Israel

No universo da política, um dos temas que mais me atrai são as estatísticas, tanto no que diz respeito as pesquisas quanto aos resultados eleitorais propriamente ditos. É uma mania desde garoto, sei lá qual a razão.

Dito isso, acabei de ver um artigo que trata da distribuição dos votos em Israel, focando em algumas cidades selecionadas. É um interessante retrato das divisões políticas que o país apresenta.

Por exemplo, Jerusalém, com todo o peso simbólico que carrega, deu cerca de 24% dos votos ao Likud, de Binyamin Netanyahu, seguido por dois partidos religiosos, a UTJ com 19% e o Shas com 15%. O Kadima, de Tzipi Lvini, recebeu apenas 11%. O Partido Trabalhista, de Ehud Barak, e o direitista Israel Beiteinu, de Avigdor Lieberman, ficaram com 6%.

Já a mais cosmopolita e liberal Tel Aviv deu uma maioria folgada para o Kadima, com 34%, seguido pelo Likud com 19% e os Trabalhistas com 15%. O partido de esquerda Meretz recebeu 8%, enquanto o Shas e o Israel Beiteinu ficaram com 6%.

Sderot, cidade do sul do país e alvo frequente de foguetes vindos da Faixa de Gaza, deu 33% dos votos ao Likud, 23% para o
Israel Beiteinu, 13% para o Shas e apenas 12% para o Kadima.

Katzerin, cidade localizada nas colinas de Golan, deu 28% para o
Israel Beiteinu, 26% para o Kadima e 22% para o Likud.

Quanto às localidades com maioria árabe, as do norte tenderam para o Hadash (de esquerda), enquanto as do sul tenderam para a Lista Unida Árabe.

Resultado final, em número de cadeiras no Knesset (total de 120 cadeiras):

Kadima (centro) - 28 cadeiras
Likud (direita) - 27 cadeiras
Israel Beiteinu (direita) - 15 cadeiras
Trabalhista (esquerda) - 13 cadeiras
Shas (religioso) - 11 cadeiras
UTJ (religioso) - 5 cadeiras
Lista Unida Árabe - 4 cadeiras
União Nacional (direita) - 4 cadeiras
Hadash (esquerda) - 4 cadeiras
Meretz (esquerda) - 3 cadeiras
Bayit Hayehudi (religioso) - 3 cadeiras
Balad (árabe, de esquerda) - 3 cadeiras

Agora, experimentem tentar montar um governo minimamente estável...


10 de fevereiro de 2009

A pressão cobra seu preço

Semana passada o Exército americano divulgou que um número recorde de seus soldados cometeu suicídio em 2008. Foram 128 mortes confirmadas e mais 15 outros casos prováveis sendo investigados.

Além disso, os Marines informaram que 41 fuzileiros também se suicidaram em 2008, contra 33 em 2007 e 25 em 2006.

Por si só, esses números já deixaram os responsáveis pelo assunto no Pentágono assustados. O pior, porém, pode ainda estar por chegar. Os números de Janeiro de 2009 são ainda mais assustadores.

No exército, já são 7 casos confirmados e 17 sob investigação. Se todos se confirmarem o número total será um novo recorde histórico, e seis vezes maior que o número de Janeiro de 2008.

Detalhe: no mesmo mês, as forças americanas perderam 16 soldados em combate no Iraque e no Afeganistão.

Pergunta: será que o nível de cobrança existente nas forças armadas (qualquer uma delas) está chegando em seu limite, e essas mortes são apenas o reflexo? Ou algo diferente pode estar ocorrendo?

P.S. Lembrei agora que a PM de São Paulo estava atravessando algo similar tempos atrás, e não deve ter melhorado...


9 de fevereiro de 2009

Encarte acidental (ou não...)

Engraçado como conversas descontraídas às vezes fazem aflorar lembranças solidamente escondidas nos subterrâneos de nossas memórias. E olha que que nem estou falando dos temas do post anterior...

Falando com companheiros de caixa de comentário em um blog de frequencia quase obrigatória, apareceu o tema livros de Dostoiévski (aliás, hoje é o aniversário de morte do cara...), e eu citei que precisava reler Mãe, o qual havia lido na adolescência e de que quase nenhuma lembrança ficara...

Naquele instante, enquanto escrevia, emergiu uma lembrança no mínimo curiosa e que vale relatar.

O exemplar do livro ao qual tive acesso me foi emprestado por uma pessoa do meu círculo familiar, que tinha um histórico de militância nas organizações de esquerda que, naquela época, combatiam a ditadura, inclusive recorrendo à luta armada. Ele já havia sido preso, torturado e, naquele instante, seu partido participava das articulações que possibilitariam, anos depois, a transição para a democracia. A época mais violenta da repressão tinha terminado pouco tempo antes, e só grupos muito isolados ainda falavam em desafiar militarmente o regime.

Esse amigo me ofereceu o livro sem que eu houvesse pedido (era um exemplar em português impresso por uma editora russa), e comecei a lê-lo. E foi aí que a coisa apareceu...

Eu estava um pouco antes da metade quando, do nada, a trama foi interrompida. O texto que apareceu impresso era, nada mais nada menos, que parte de um manual de guerrilha, voltado para a luta armada no campo. Estava recheado de exemplos retirados da experiência de luta dos vietcongs e, em menor escala, dos revolucionários cubanos.

Eram cerca de 40 páginas impressas no mesmo formato gráfico do restante do livro, e recheadas de instruções e dicas de como levar adiante certos aspectos do combate, especialmente sabotagem. Tratava também de aspectos de segurança das operações, e como lidar com a população civil.

Lembro de ter notado que, aparentemente, o texto era parte de algo maior, e que por começar e terminar abruptamente deixava a impressão de que a inclusão dentro do romance poderia ter sido acidental. Nunca tirei essa dúvida, até porque, preocupado com o conteúdo, tratei de terminar a leitura do livro rapidamente e devolvi o exemplar ao meu amigo. Não tenho certeza, mas acho que não comentei nada com ele sobre a parte "intrusa".

Como ainda vivíamos na ditadura (era o governo Geisel), não comentei o assunto com mais ninguém na época, e acabei desterrando o tema para as profundezas do meu subconsciente. Devo ter comentado, de lá pra cá, com no máximo umas três pessoas e sem dar detalhes.

Ah! Antes que eu esqueça, o amigo que me emprestou o livro seguiu na política e depois da redemocratização foi eleito para cargos públicos. Nos vemos muito pouco, mas ele continua uma grande figura.

5 de fevereiro de 2009

O meme dos segredos (ou das roubadas...)

Eu já vinha vinha seguindo esse meme desde o Sergio Leo, passando pelo Hermenauta, até o Ricardo Cabral. E não é que esse último resolveu me chamar pra brincadeira?

Deveriam ser 6 coisas que as pessoas não sabem sobre você. Alguns dos participantes optaram pelas roubadas onde estiveram metidos.

Vou misturar um pouco das duas coisas, sem entrar em detalhes sórdidos.

- Carnaval de 78 (mais ou menos), um grupo de uns 12 amigos resolve ir para o desfile oficial de blocos e escolas vestido à caráter: todo mundo com roupa de mulher. Peguei um vestido da mãe, pus uns enchimentos e fui pra galera. Imaginem a reação do distinto público...

- Todo mundo (ou quase) tem um porre homérico na ficha. O meu memorável foi na festa de 15 anos de uma prima querida (e que precocemente nos deixou) . Misturei de tudo, fui até o sítio de um tio, e foi um vexame só (claro, inventei de deitar numa rede e balançar, já viu... ). Uns três dias meio fora do ar...

- Quer roubada maior para quem gosta de futebol do que assistir uma jogo do seu time no meio da torcida arqui-rival? Tive que passar por essa duas vezes, uma na terrinha e outra em Sampa. Sabe lá o que é ficar no meio da Gaviões e seu time não ser o Corinthians? Sinistro.

- Acho que foi em 1980, estudava em um cursinho de línguas (inglês, tá bom?), e estava atrasado pro início da aula. Pra chegar na sala, tinha que atravessar um pátio aberto com escadaria, quase um anfiteatro. Entrei no espaço quase correndo e dei de cara com TODOS os alunos do curso sentados na tal escadaria, aguardando o início de uma demonstração de combate à incêndios. Não deu outra. Foi a maior vaia da minha vida...

- Sem detalhes: sabe lá o que é um cartão de natal mandado para (o que parecia) uma paixão alucinada, a qual está em uma excursão repleta de conhecidos, e o tal cartão cai na mão da galera toda?

- Pra terminar: sou um sentimentalóide daqueles, capaz de marejar os olhos em qualquer filmezinho mais piegas...


Pronto. Falei.

Agora é a vez do Pax, do Chapola, da Fal, do Bruno, do Darw, da Nhé, do Anrafel, do James Bond, do El Torero e de quem mais quiser.

Quem não tiver blog, use a caixa de comentários, faz favor.

4 de fevereiro de 2009

Team Obama e o pagamento de impostos

Não deixa de ser curioso que o principal problema que os indicados por Barack Obama para fazer parte da nova equipe de governo americana tem enfrentado são dúvidas quanto a impostos. A velha e conhecida sonegação.

Primeiro foi o Secretário do Tesouro, Tim Geithner, cuja confirmação pelo Senado só aconteceu após uma sabatina pouco amistosa e bastante constrangedora, e na qual Tim foi obrigado a fazer um pedido de desculpas que beirou a humilhação. O foco era uma pretensa dívida de U$ 34 mil.

Ao mesmo tempo, o ex-senador Tim Daschle, indicado para a Secretaria da Saúde, e Nancy Killefer, indicada para ser a responsável pelo setor que supervisiona os gastos públicos, vinham enfrentando problemas. Ambos pediram ontem que suas indicações fossem retiradas.

Daschle, um dos políticos mais chegados à Obama, enfrentava acusações por ter usado, sem notificação e consequente recolhimento de impostos, motoristas e veículos de fornecidos por um amigo. Valor da dívida: US$ 128 mil. Daschle vinha alegando que foi um erro inadvertido, mas a pressão cresceu e ele resolveu não prosseguir.

Já Killefer enfrentava acusações de não recolhimento de impostos retidos de uma empregada doméstica. Para alguém que ia desempenhar uma função fundamentalmente de controle da adequada execução do dinheiro público, o constrangimento ficou evidente e ela desistiu.

Visivelmente constrangido, Obama pediu desculpas e reconheceu os erros. Mas os fatos só jogaram lenha na fogueira dos que desconfiam da pregação por mudança ética feita pela nova administração.

Pra terminar, eu imagino o Anselmo Góis falando do assunto: Deve ser horrível viver num país onde os homens públicos sonegam impostos...

3 de fevereiro de 2009

O dia em que a música não morreu

Tempos atrás eu escrevi, meio na brincadeira, que estava ficando especializado em efemérides, pela quantidade de datas relevantes que estava usando como tema para posts. Um dos (poucos) comentaristas até deu uma força para eu continuar...
Pois lá vamos nós de novo...




Hoje completam-se 50 anos do acidente de avião, ocorrido próximo à Mason City (Iowa), que matou os músicos Buddy Holly, Ritchie Valens e J.P.Richardson (conhecido como The Big Bopper). O fato serviu como inspiração para que Don McLean criasse em 1971 a música American Pie, grande sucesso na época e posteriormente regravada (de forma parcial) por Madonna em 2000.

A letra da música é muito extensa, e faz uma espécie de resenha da evolução do cenário musical no período entre o acidente e o momento em que foi escrita, entrecortada com momentos da vida de McLean. Tudo isso feito com uma montanha de citações, diretas e indiretas.

A estrofe que ficou mais famosa é aquela que se refere ao acidente como "the day the music died...".

Tenho que concordar que, naquele momento (início dos anos 70), a cena musical não era particularmente brilhante, muito pelo contrário. Em uma espécie de ressaca após os alucinantes anos 60, a grande maioria dos expoentes da cultura pop musical da época estavam atravessando uma fase de vacas magras em matéria de criatividade. Ao mesmo tempo, a reação conservadora estava começando a ampliar sua ação. E lembremos que entre setembro de 70 e julho de 71 ocorreram as mortes de Janis Joplin, Jimi Hendrix e Jim Morrison. Pancada, não? Tudo isso resultou em uma enorme quantidade de material que, na falta de palavra melhor, considero "chato".

Qualquer retrospectiva rápida do período entre 1970 e hoje vai encontrar, como não poderia deixar de ser, quantidades variáveis desse material de menor qualidade. Os anos 80, particularmente, foram difíceis... Aliás, foram difíceis sob todos os aspectos e em todas as áreas...

Mas, felizmente, qualquer um que procure também vai achar música de boa, excelente qualidade em todo esse período. Para todos os gostos, modos de vida e faixas etárias.

Por exemplo, e usando duas bandas de linhas diferentes e pelas quais não sinto nenhuma afeição exagerada (gosto, ponto.), não dá pra ninguém dizer que R.E.M. e Dire Straits não tem um material muito bom, excelente mesmo. Muitos não se identificam, paciência.

Felizmente, da para afirmar que as notícias sobra a "morte da música" foram um pouco exageradas...

Mas que foi uma pena a morte precoce de três talentos, isso foi...

2 de fevereiro de 2009

Momentos que não tem preço

Todo mundo já viu aquela propaganda de cartão de crédito (na realidade uma campanha com diversos anúncios) que coloca preço em alguns objetos ou serviços e, no final, fala de momentos que não tem preço.

Sempre achei que, como sacada de publicitário, era muito boa. Nada além disso.

Um dos anúncios mais recentes (ou nem tanto...) mostrava o desenvolvimento da relação pai-filho. E um dos momentos mostrados era dos dois indo a um jogo de futebol (o filho já homem feito) e usando símbolos de um clube de preferência.

Já fui com meu filho assistir jogos no estádio, e muitas outras vezes nos plantamos defronte a televisão sofrendo com nossos times do coração. Mas, para mim, a ficha nunca havia caído no tocante a sensação de unidade e continuidade que esses momentos representam.

Nunca, até esta última madrugada.

Assistimos juntos, e torcemos loucamente, a partida final do torneio principal de um esporte que tem ainda poucos fãs no Brasil: o futebol americano. Exato, assistimos o Superbowl. E uma das equipes que participaram do espetáculo, o Pittsburgh Steelers, tem a minha simpatia desde a época de adolescente. Nem me perguntem a razão. Iria demorar para explicar.

Essa paixão contaminou o único filho homem, que acabou de entrar na maioridade. Ele acompanhou a temporada toda com atenção maior que a minha, assistiu quase todos os jogos (os que não passavam na TV, ele conseguia links na internet e assistia via streaming) e me informava de detalhes que a falta de tempo me impedia de procurar por meus próprios meios.

Pois bem. Neste começo de madrugada, logo após o final do jogo (aliás, de tirar o fôlego e ameaçar a vida de qualquer hipertenso), estávamos lá, sozinhos na sala, todo o resto da casa (e acho que do bairro) dormindo, e gritávamos, nos abraçávamos, comemorávamos enfim a vitória.

E a ficha então caiu.

Ele cresceu, está na faculdade e já procura meios de se manter sozinho. Mas ainda tem tempo para acompanhar o pai nas paixões herdadas.

Realmente, certos momentos não tem preço.

28 de janeiro de 2009

Dick Cheney e Dr. Strangelove: apenas coincidência???



Vi essas fotos no blog do Sérgio Dávila, e não resisti.

"A vida imita a arte", ou então "separados no berço", ou qualquer outra frase nesse sentido...

Até porque as ideias dos dois encaixam perfeitamente...

E dizem à boca pequena que Cheney "inventou" o problema nas costas para poder usar a cadeira de rodas e assim tentar despertar sentimentos menos belicosos em quem assistiu a posse...


P.S. Estamos completando, nesta semana, exatos 45 anos do lançamento do filme Dr. Strangelove. Outra coincidência????

26 de janeiro de 2009

Irônico pra mais de metro...

Proibir livros, qualquer que seja seu conteúdo, é uma ofensa à democracia. Além de ser uma idiotice sem tamanho, se o objetivo for barrar a difusão de ideias. Nunca funciona. Muito pelo contrário...

OK. Sei que algumas democracias sólidas (França, Áustria, Alemanha e Canadá, por exemplo) criminalizaram formas de difusão de "doutrinas do ódio", especialmente quando o alvo desse ódio são minorias. E o Brasil também tem uma legislação nesse sentido. Mas mesmo esse tipo de legislação é discutível quanto a sua eficácia e quanto à necessidade de sua existência. Pessoalmente, tenho minhas dúvidas.

Mas o que move este post é o movimento desencadeado em alguns setores religiosos ultra-conservadores americanos para banir um certo livro.

Qual? Fahrenheit 451, de Ray Bradbury.

Quem leu o livro certamente já captou a suprema ironia. Mas para quem ainda não leu, uma pequena dica: um dos temas do livro é ... a proibição absoluta da posse de livros. Passado num futuro próximo em um mundo totalitário onde pensar é algo inútil e perigoso, e onde os bombeiros são os encarregados de caçar e queimar os livros, o livro é uma crítica feroz à sociedade americana da época de sua publicação (1953), onde o macartismo florescia.

Ou seja: Ironia pouca é bobagem...



P.S. Explicando um pouco melhor: os grupos religiosos pediram (e já conseguiram em alguns casos) a proibição do livro basicamente pela utilização de "linguagem inapropriada". Principalmente, "hell" e "damn", cujo uso poderia "afetar a mente das crianças".
Ou seja, tão de gozação... Só pode.

E com certeza, idiotice pouca também é bobagem...

Aliás, o vídeo abaixo é bastante elucidativo...



22 de janeiro de 2009

21 de janeiro de 2009

Guantánamo

Obama mandou suspender temporariamente os processos contra os detidos em Guantánamo. E já sinalizou que mandar fechar a prisão.

Ótimo, começou muito bem.

Entretanto, no meio de toda a falação sobre o tema, não me lembro de ter visto ninguém que falasse sobre a própria existência da base.

Um resquício do mais genuíno colonialismo, arrancada de Cuba por um tratado totalmente desigual, a base, mesmo depois da eventual saída dos prisioneiros, continuará depondo contra os Estados Unidos, especialmente frente ao povo da América Latina e Caribe.

Talvez esteja chegando a hora de o governo americano começar a pensar na devolução da área para o controle dos cubanos.

Claro que, antes de mudanças políticas em Cuba, esse tipo de medida enfrentaria pesada resistência dos setores mais conservadores, notadamente da comunidade cubano-americana concentrada na Flórida.

Mas, por outro lado, talvez seja uma boa moeda de troca para persuadir o governo cubano a realizar reformas políticas mais profundas.



20 de janeiro de 2009

Acaba hoje, finalmente


Foram oito e quase intermináveis anos de (des)governo de George Walker Bush.

Análises sobre o significado desta era estão pipocando em todo canto, e muitas mais ainda aparecerão. Até porque muitos dos descalabros só vão ser revelados nos próximos meses e anos.

Pessoalmente, já deixei claro inúmeras vezes o quanto essa figura nefasta e seus acólitos me dão ânsia de vômito, com todo o mal que praticaram dentro e fora dos EUA.

O que pretendo neste post é que cada um dos leitores expresse sua opinião sobre a figura que hoje deixa a Casa Branca.

E não se reprima nessa hora. Solte o verbo. Se quiser, baixe o nível, não tenha pena. Pode pegar pesado.

É a hora da vingança, de soltar tudo aquilo que ficou preso dentro de nós por tanto tempo.

Mãos à obra.


P.S. A foto aí em cima é genial...


16 de janeiro de 2009

Sasha Grey, sua danadinha... (e é conterrânea...)


Pra quem não conhece, esta aí em cima é Sasha Grey, atriz, modelo e, agora, cantora americana. E quando eu digo atriz é abrangendo todo o amplo espectro da representação...

Ou seja, ela é também atriz pornô. Que aliás foi por onde começou.

Mais recentemente, após se firmar no topo do mercado de filmes adultos, ela começou a transcender esse setor da indústria de entretenimento e passou a ser chamada para participar de video-clipes e filmes convencionais. Seu próximo filme, por exemplo, vai ser dirigido pelo conhecido Steven Soderbergh.

O site da edição brasileira da revista Rolling Stones traz uma rápida entrevista, enfatizando as múltiplas atividades agora exercidas por Sasha.

Peço atenção para a última e antólogica resposta.

Vocês entenderão porque não reproduzimos aqui neste espaço...


UPDATE 1: E não é que a garota é aqui da terrinha? Bem que eu achei que ela tinha alguma coisa meio familiar (ops...), especialmente a língua (!!!) afiada...

UPDATE 2: Nos comentários, apareceu um possível desmentido ao Update anterior...

14 de janeiro de 2009