23 de fevereiro de 2010

Eles não tomam jeito (3)

Um dos países que mais constantemente desperta meu interesse é a Turquia. Nem sei exatamente por que. Não tenho laços de nenhum tipo com o país (pelo menos que eu saiba...), e a única razão que me passa pela cabeça é a História, uma das minhas paixões. A quantidade de eventos marcantes para a Humanidade que ocorreram naquela área é impressionante...

Dentro desse meu interesse uma coisa ressalta: muito frequentemente tenho posições nada lisonjeiras para com os governantes turcos, especialmente os dos últimos 300 anos. O tratamento dispensados às minorias e povos conquistados é, independente do tipo de governo e de sua posição política, deplorável. Armênios, curdos, gregos e árabes que o digam...

Todo esse tipo de problema se agravou incrivelmente a partir da chamada Revolução dos Jovens Turcos, em 1908, e que apesar de ter sido feita com supostos ideais liberais e democráticos (o mote era reinstalar a constituição que o sultão havia suspenso anos antes), na realidade descambou para um governo autoritário, centralizador e ultranacionalista. E teve o subproduto de trazer o Exército para dentro da política, de onde nunca mais saiu inteiramente.

Resultado? Com relação aos grupos étnicos, além do conhecido Genocídio dos Armênios (1915-1918), foram massacrados gregos, cristãos ciríacos e nestorianos e curdos. Talvez nunca saibamos o total de vítimas, mas as estimativas variam de 2 milhões até 4,3 milhões de mortos.

Com relação a política interna, após o longo governo de Kemal Ataturk (1923-1938), que estabilizou e modernizou o país, voltaram a ocorrer instabilidades. De lá para cá foram 4 golpes militares bem sucedidos e diversos outros que não tiveram êxito. Regra geral, as ações dos militares tem como desculpa a luta contra a corrupção e o combate a medidas mais liberais ou anti-seculares. Ou seja, mal escondem sua ideologia de direita e ultranacionalista.

Desde a posse em 2003 do atual primeiro-ministro Recep Tayyip Erdoğan, do Partido da Justiça e Desenvolvimento, de linha islâmica moderada, várias conspirações militares foram descobertas e debeladas. A última foi esta destroçada esta semana.

Um grupo de 49 militares da ativa e da reserva, incluindo 17 generais e 4 almirantes, foi preso após longa investigação. Ligados a uma organização chamada Ergenekon, pretendiam desencadear ações terroristas para desestabilizar o governo e justificar uma intervenção das Forças Armadas .

Engraçado como o enredo quase nunca muda, qualquer que seja o país.

Esses caras realmente não tomam jeito...

6 comentários:

Pax disse...

Parabéns pelo post. Muito apropriado.

Quando vejo esse tipo de notícia mais me convenço que os militares têm que ficar contidos em seus quartéis.

Anrafel disse...

Consta que Hitler, questionado por um assessor próximo sobre a reação internacional ao que viria a ser a Solução Final, rebateu dizendo que os turcos haviam feito o mesmo com os armênios e o mundo não tomara conhecimento.

Isso diz alguma coisa sobre o chefe nazista, sobre os turcos e sobre o mundo.

Anrafel disse...

Mas a Turquia é realmente um país que, escolhido para ser objeto de estudo de alguém, periga ocupar todo o espaço de uma vida acadêmica.

Encruzilhada entre dois mundos, por aquele território circularam grandes viajantes e guerreiros, foram cunhadas as primeiras moedas, travou-se a mais famosa de todas as batalhas, lendárias ou não, nasceram grandes filósofos, operou boa parte das sua viagens missionárias Saulo de Tarso, etc, etc.

Tudo isso deve ter deixado no DNA dos turcos, inclusive e principalmente seus líderes políticos e militares, uma nostalgia de glórias e conquistas passadas. Isso, junto com idéias de supremacismo cultural e religioso, tende a desembocar em alguns fatos narrados no ótimo post.

De uma coisa o mais chauvinista dos turcos não deve se orgulhar - acho mesmo que sente até vergonha: aqueles cinco ou seis caras correndo atrás de Denilson, em 2002,doidos para tomarem lençóis, canetas, pedaladas, elásticos e similares.

Tudo bem, nada que impeça a entrada do país da União Européia.

Ricardo disse...

engraçado mesmo! Também me chama muito a atenção as bandas da Turquia. Muito legal ver vc discorrendo sobre o assunto por aqui, amigo Luiz!

Grande abraço

Pablo Vilarnovo disse...

Pergunta: fazer golpes militares, ser ultranacionalista é sinônimo de direita?

Luiz disse...

Pablo,

No caso específico da Turquia, ao qual eu me referi, sim. Sem a menor dúvida.

Falando em termos gerais, existem alguns casos de militares que se diziam de esquerda (Portugal, por exemplo). Destes, uma parte tinha discurso nacionalista (Peru, por exemplo).

Militares esquerdistas e ultranacionalistas é uma mistura que deve ter existido, mas, convenhamos, é bem rara (Etiópia e mais alguns casos na África ou Ásia).

Mas, aqui pra nós, nada nem perto (em número) das ocorrências de militares direitistas e nacionalistas (em qualquer ênfase).