23 de setembro de 2008

O poeta vive

A exatos 35 anos nos deixava Pablo Neruda.

Um câncer o poupou de ter de assistir seu amado Chile ser pisoteado quase até o limite pela ditadura que se instalara 12 dias antes.

Poucos anos depois, talvez por volta de 1976, me caiu às mãos a sua autobiografia, Confesso que Vivi. Marcou-me de maneira indelével, apesar de eu ser jovem demais para compreender o personagem em sua totalidade.

Uma pequena homenagem:


Tuas mãos

Quando tuas mãos saem,
amada, para as minhas,
o que me trazem voando?
Por que se detiveram
em minha boca, súbitas,
e por que as reconheço
como se outrora então
as tivesse tocado,
como se antes de ser
houvessem percorrido
minha fronte e a cintura?

Sua maciez chegava
voando por sobre o tempo,
sobre o mar, sobre o fumo,
e sobre a primavera,
e quando colocaste
tuas mãos em meu peito,
reconheci essas asas
de paloma dourada,
reconheci essa argila
e a cor suave do trigo.

A minha vida toda
eu andei procurando-as.
Subi muitas escadas,
cruzei os recifes,
os trens me transportaram,
as águas me trouxeram,
e na pele das uvas
achei que te tocava.
De repente a madeira
me trouxe o teu contato,
a amêndoa me anunciava
suavidades secretas,
até que as tuas mãos
envolveram meu peito
e ali como duas asas
repousaram da viagem.



2 comentários:

nada será como antes disse...

Não é preciso acrescentar nada, quando se trata de Neruda.

Morreu o homem, ficou a obra, para sempre.

Pax disse...

É verdade o que diz o bom NSCA.

Sugestão de leitura do Neruda: Ode à cebola. Maravilhoso também, como toda a obra.