11 de novembro de 2008

Ecos de um conflito quase esquecido

Responda rápido: que dia é hoje?

A maioria vai lembrar rápido da data: 11 de novembro de 2008.

Mas, e daí? O que essa data significa? Não vale olhar a Wikipedia...

Admito que, como fanático por história, essa é uma data da qual sempre soube o significado. Mas esse ano quase passei batido. Ouvindo o rádio hoje pela manhã um locutor indiretamente me refrescou a memória: hoje é o Dia do Armistício.

Que bicho é esse? Bem, é em comemoração à assinatura do cessar-fogo que pôs fim a 1ª Guerra Mundial, em 11 de novembro de 1918. Ou seja, exatos 90 anos.

Se você não é também um tarado por história, e especialmente por temas militares, tenho certeza de que acha essa data apenas mais uma daquelas milhares que estão nos livros didáticos e que não representam basicamente nada. Aliás, representam sim: mais uma brecha para aqueles antigos professores de história que gostavam de obrigar os alunos a decorar fatos e datas sem explicar a verdadeira importância dos mesmos.

É quase um consenso de que a 2ª Guerra foi o último conflito de grande porte onde os lados estavam perfeitamente caracterizados. Sabíamos que estava certo e quem estava errado, quem representava o bem (vá lá...) e quem era a imagem do mal, quem era o agressor e quem era o agredido. E ao final da guerra estava lá o preço pago: aproximadamente 70 milhões de mortos, entre militares e civis.

A 1ª Guerra não teve esse caráter claramente estabelecido, nem durante e principalmente após seu encerramento. A luta entre as potências imperialistas parecia inevitável no final do século XIX e início do século XX, com cada uma procurando se preparar da melhor forma possível, incluindo uma política de alianças que tirava quase qualquer margem de manobra dos defensores da diplomacia. A "paz armada" era a tônica, e bastaria um estopim para abrir a caixa de Pandora...

Quando chegamos à novembro de 1918, depois de 4 anos de lutas e atrocidades (não esqueçam o genocídio contra os armênios...), em que grande parte dos armamentos hoje utilizados (e até alguns que foram posteriormente proibidos...) tiveram sua origem, que destruíram totalmente qualquer ideal romântico-nacionalista que grandes parcelas das populações tinham quando da eclosão das hostilidades, e depois de quase 20 milhões de mortos, o mundo havia mudado mais profundamente do que nos 50 anos anteriores, e as marcas do conflito e dos tratados de paz que o seguiram acabariam dando o mote para a matança subsequente.

Ou será que alguém imagina que aquele austríaco que serviu como cabo no exército alemão teria conseguido realizar toda aquela "obra" sem que existisse na Alemanha dos anos 20 um terreno fértil para as suas pregações extremistas? Ou que os totalitarismos italiano, japonês e, de certa forma, o stalinismo, são em boa medida filhos da chamada Grande Guerra ?

Em meados dos anos 90, alguns analistas diziam que o século XX começou e terminou no mesmo lugar: Sarajevo. Das balas que mataram o arquiduque austríaco em 1914 até o conflito entre sérvios, bósnios e croatas por nacos da então Iugoslávia, parece que realmente as mudanças não foram tantas assim.

Se bem que, sobre o real fim do século XX, a Al-Qaeda tem opinião diferente...


6 comentários:

anrafel disse...

Com a Primeira Guerra, a Europa mostrou que no século XX continuaria firme na obsessão auto-destrutiva que lhe marcou nos séculos precedentes.

O conflito foi tão diabólico que, ainda na década de 30, França e Inglaterra estavam exangues economicamente e nada puderam fazer de efetivo para impedir o avanço da Alemanha e a deflagração da Segunda Guerra.

Ainda bem que tivemos a URSS e os EUA.

Monsores, André disse...

Ótimo post, Luiz. Primeiro lugar na blogosfera que vejo que a data não passou batida.

É incrível a quantidade de literatura que há sobre a Segunda Guerra, mas sobre a Primeira, pouco se fala. E não dá pra esquecer...

Gwyn disse...

Luiz,

Ontem no documentario que assisti foi falado que o General Foch disse que eles na verdade nao assinaram um Armmisticio e sim um cessar-fogo de 20 anos...palavras profeticas as dele.

Pax disse...

A velha guerra das trincheiras. Houve lugares onde morreram centenas de milhares de pessoas, isso mesmo, centenas de milhares, e as linhas confrontantes não variaram nem 500 metros. Os corpos apodrecidos eram virados de barriga pra baixo pros cara poderem pisar em cima. Do contrário os pés afundavam nas tripas em decomposição e impediam os movimentos mais rápidos.

Enfim, histórias dentro da História.

anrafel disse...

Peço aos amigos desculpas pela longa transcrição, mas acho que vale a pena:

"...
Os horrores da guerra na Frente Ocidental teriam conseqüências ainda mais tristes. Sem dúvida, a própria experiência ajudou a brutalizar tanto a guerra como a política: se uma podia ser feita sem contar os custos humanos ou quaisquer outros, por que não a outra?

Quase todos os que serviram na Primeira Guerra Mundial - em sua esmagadora maioria soldados rasos -saíram dela inimigos convictos da guerra.

Contudo , os ex-soldados que haviam passado por aquele tipo de guerra sem se voltarem contra ela às vezes extraíam da experiência partilhada de viver com a morte e a coragem um sentimento de incomunicável e bárbara superioridade - inclusive em relação às mulheres e não combatentes - que viria a formar as primeiras fileiras da ultradireita do pós-guerra. Adolf Hitler era apenas um desses homens para quem o fato de ter sido 'frontsoldat' era a experiência formativa da vida."

Eric Hobsbawm, in "A Era dos Extremos", pg. 34.

Ricardo Leal disse...

Bom post sim, Luiz. "Quase esquecido" em termos; você aponta bem o significado daquele verdadeiro ponto de inflexão na história da Europa. A ressonância ainda é intensa hoje em vários planos. Deixei mensagem lá no fio aberto do PD. Bom, a título de curiosidade, link para texto curtinho sobre a participação brasileira no final do conflito. http://www.brasilescola.com/historiab/brasil-primeira-guerra.htm