16 de julho de 2008

Nunca dantas na história deste país ...

Antes que o nojo me impeça de raciocinar direito e acabe falando besteiras, é melhor reproduzir esse texto do Hermenauta:

_ Ô, Protógenes!

Protógenes levantou a cabeça por cima da parede do seu cubículo e avistou o seu chefe fumegando em sua direção. “Malditas segundas feiras”, pensou.

_ Porra, Protógenes!

Junto com o expletivo, aterrisou na mesa de Protógenes um enorme calhamaço, jogado pelo seu chefe de uma distância que em outro lugar valeria uma cesta de 3 pontos.

_ Qual o problema, chefe? _ murmurou um acuado Protógenes.

_ Tu ainda me pergunta qual é o problema?? Qual é a tua? Depois de quatro anos de investigação, milhares de horas homem de trabalho, cinquenta grampos autorizados pela Justiça…tu me aparece com isso?

O chefe pegou o calhamaço e o agitou na frente de seu rosto, de modo que Protógenes só conseguia ver o título do documento _ “Investigação acerca da eventual culpabilidade de Daniel Dantas: o Poder de Polícia, seus Limites e Possibilidades” _ encimado por um par de olhos vermelhos e coléricos.

_ Que porra é essa, Protógenes???

_ Bom, chefe, é o relatório final da operação Satiagraha e…

_ Porra, Protógenes! Isso não é um relatório de um inquérito, é uma tese de doutorado!

_ É, chefe, eu aproveitei e…

_ Aproveitou uma ova! Teu relatório tem dedicatória, Protógenes! DE-DI-CA-TÓ-RI-A! Quer que eu leia pra você?

Antes que Protógenes pudesse dizer que não, que ele conhecia a dedicatória muito bem, afinal havia sido ele quem a escreveu, o chefe começou a berrá-la a plenos pulmóes:

_ “Gostaria de dedicar este relatório a meus filhos, minha mulher, meu professor de lógica modal e a Daniel Dantas, sem cuja colaboração este relatório jamais poderia ter sido escrito”…

_ Mas, chefe, é verdade, veja bem que…

_ PORRA, Protógenes, eu sei que você é cuidadoso, todo mundo neste maldito prédio sabe, mas agradecer o suspeito já é demais, você não acha não?

_ Tecnicamente, chefe, o Daniel Dantas não é bem um suspeito, porque tecnicamente, dependendo do valor de verdade…

_ CALABOCA, Protógenes!

_ Mas chefe, o fato é que o Dantas é fruto do seu meio, uma típica personalidade criada por um mundo materialista que…

_ Protógenes, enfia essa sua filosofia no cu! Eu quero é saber se o juiz vai prender o Daniel Dantas ou não vai, cacete!

_ Chefe, o sistema jurídico, tal como plasmado em nossa sociedade…

_ PORRA, Protógenes! Eu quero saber o seguinte: você fez o Dantas tocar o piano ou não?

_ Chefe, o Sr. sabe muito bem que não dispomos destas amenidades aqui na delegacia e…

_ Não fode, Protógenes!

O chefe saiu zunindo, sabendo que daí a meia hora teria que se haver com um furioso Ministro da Justiça. Protógenes sentou no seu cúbiculo, coçou a cabeça um pouco, e retomou a leitura do seu exemplar de “After the Fact”, do Clifford Geertz.



P.S. Título do post inspirado por Juca Kfouri .

2 comentários:

DarwinistO disse...

Muito bom!

Pax disse...

Coitado do Protógenes. Encarou Dantas que comprou, bem, de A a Z, é melhor achar quem ele não comprou.

E o tadinho do Protógenes tá apanhando mais que Marina Madalena Silva.

Prender ladrão rico e defender nossas florestas só dá roubada. Com todos os trocadilhos que tenho direito !